sexta-feira, outubro 19, 2007

De regresso à Arquitectura

Desde o dia 3 de Outubro que o Centre Pompidou em Paris tem em exposição cinco vídeos de David Claerbout, um mais antigo, de 2002 , dois realizados este ano e “The Bordeaux Piece”de 2004 e “Shadow Piece” de 2005. Em todos a arquitectura é elemento fundamental. “Je m’intéresse aux propositions faites par des espaces construits, ..bien sûr l’architecture est à la fois un élément qui insuffle une forme, une géometrie,...ele filtre et répartit la lumière dans un lieu” comenta Claerbout numa entrevista.

David Claerbout, "The Bordeaux Piece", vídeo, 2004

O título, “The Bordeaux Piece”, remete para o espaço onde é filmado: a casa que Rem Koolhaas construiu em 1998 em Bordéus. A proprietária, como nos recorda Claerbout “...avait proposé à des plasticiens d’y intervenir, mais le lieu était trop “signé” et ils n’y trouvaient pas leur place”. Para ele é impossível recusar tal desafio porque vê na casa de Koolhass uma escultura construida para receber luz, e isso fascina-o. A luz, vai simultaneamente ser matéria e sujeito nos vídeos de Claerbout.

Para a acção e diálogos, Claerbout vai inspirar-se no filme “Le Mépris”, 1963 de Godard, o diálogo é o que menos lhe importa, poderia ter sido outra história qualquer, para ele “je cherche des images qui nos procurent une impression de déjà-vu. Ce que je désigne, en dernier lieu, c’est un espace, un moment ou un horizon extérieur au sujet traité.” Durante um mês, entre Julho e Agosto, desde o amanhecer, 5h 30mn, ao anoitecer, 22h, Claerbout filma planos fixos de dois a três minutos durante sucessivas horas do mesmo dia, no final juntou todas as cenas filmadas à mesma hora dos diferentes dias. Em planos sucessivos, com a duração de dez a doze minutos o diálogo repete-se.



David Claerbout, do vídeo, "The Bordeaux Piece", 2004

O espectador ouve o primeiro e talvez o segundo, depois deixa de ouvir, a narração da história deixa de ter importância, o tempo total do vídeo, 13 horas e 40 minutos, acentua a anulação da narrativa pois excede largamente os hábitos do espectador. O cinema usa a ilusão do movimento para tornar apreensível e credível para a vista a simulação da vida, mas o que interessa a Claerbout não é a ficção de uma história, nem um documentário da obra de Rem Koolhaas, o que lhe interessa é mostrar a arquitectura da casa de Rem Koolhaas estruturada pela luz.



David Claerbout, do vídeo "The Bordeaux Piece", 2004

Progressivamente, com a técnica que utiliza da repetição do diálogo nos planos fixos sucessivos, a casa, estruturada pela luz, sobressai, e a história, o diálogo, é esquecido. O vídeo de Claerbout é o contrário do cinema, a narração da história desaparece pela duração do tempo e é a luz, filmada ao longo do dia, que gradualmente se constitui na matéria e sujeito, é ela que constroí o espaço, pois as sombras, que dependem da luz, desenham os espaços.

David Claerbout, do vídeo "The Bordeaux Piece", 2004

Em “The Bordeaux Piece” o jogo entre fotografia, imagem-parada, e cinema, imagem-movimento desempenha um papel fundamental. À semelhança da fotografia, que fixa numa ínfima fracção de tempo a casa de Rem Koolhaas, no vídeo, durante dez a doze minutos, diferentes planos fixam a mesma intensidade luminosa, a luz filmada à mesma hora durante os vários dias. À semelhança do cinema, fluxo torrencial de imagens, o vídeo embora numa resistência a esse fluxo de imagens, revela na casa o movimento das sombras. Claerbout utiliza o cruzamento da fotografia e cinema, para criar através do vídeo, uma outra forma de produção do visível.

“Shadow Piece”, um outro vídeo de Claerbout remete também para uma arquitectura moderna, mas desta vez, o suporte, uma fotografia encontrada num arquivo de imagens de arquitectura moderna não identifica o autor. Em “Shadow Piece” Claerbout sobrepõe à imagem fotográfica, a acção de um vídeo onde várias pessoas tentam entrar no edifício.




David Claerbout, do vídeo "Shadows Piece", 2005

Mas ao contrário do vídeo anterior, a fotografia fixa as sombras, e nos 25 minutos que dura o vídeo as sombras não se alteram. Nós observadores estamos dentro do hall e olhamos do cimo das escadas o espaço fechado pelas portas de vidro, que as pessoas tentam em vão abrir. As sombras, em primeiro plano, o esqueleto vivo da composição, anulam agora a duração do tempo, as acções sucedem-se, mas agora é a imobilidade das sombras que revelam a paragem do tempo. Neste vídeo “la lumière joue pourtant un rôle un peu différent de celui qu’elle tient dans les autres pièces. Elle éclaire particulièrement l’architecture moderniste, la transparence qu’elle promet et que ce type de photographie d’architecture cherche à accentuer”comenta Claerbout.

Miguel Coelho, é arquitecto e um rigoroso fotógrafo de arquitectura, “people find it natural that an architect-photographer should concentrate on architecture”, diz Gabriele Basilico, também ele arquitecto de formação e fotógrafo de arquitectura. Muitos são os exemplos, e aqui já vimos as fotografias que o arquitecto Victor Palla tirou à casa que construiu para si.
Há dias entrei pela primeira vez no site “fotografia de arquitectura”, de Miguel Coelho e fiquei fascinada com as superfícies e volumes criados pela depuração de linhas e planos das suas fotografias.

Miguel Coelho, Casa de chá da boa Nova, Matosinhos, Portugal, Arq. Álvaro Siza

Num primeiro momento parecia que as já tinha visto, um “déjà-vu” como refere Claerbout. Depois veio-me à memória as imagens dos vídeos de Claerbout que vira há dois anos. Seguiu-se Dan Graham, o artista que encarou o espaço urbano dos subúrbios como esculturas minimalistas, e que gostava de documentar as suas preocupações denunciando com as suas fotografias a perca de individualidade dos subúrbios, simulado pelas variações possíveis.

Dan Graham, Row of New Tract Houses, Bayonne, N.J., 1966

Miguel Coelho, "Moradias da Azenha", Matosinhos, Portugal, Arq. Elisiário Miranda

Graham fotografou com frontalidade, verticalidade, rectidão (são raras as linhas curvas), como agora fotografa Miguel Coelho, que nos mostra como os aquitectos hoje exploram e mudam as qualidades do espaço.

Dan Graham, Split Level, two Home Homes, Jersey City, N.J., 1966

Miguel Coelho, Edifício residencial "Luso", Porto, Arqs. José Carlos Loureiro, Luis Pádua Ramos


Miguel Coelho, Edifício de habitação plurifamiliar, Porto, Arq. Adalberto Dias

Mas porque me terá vindo à memória os vídeos de Claerbout quando olhei para o portefólio de Miguel Coelho? Terá sido a associação a Rem Koolhaas e às sombras, que a partir da luz, desenham a entrada do hall da Casa da Música no Porto?,
Miguel Coelho, "Casa da Música", Porto. Arq. Rem Koolhaas/OMA
ou às figuras que nos dão a escala e o volume dos edifícios?,
Miguel Coelho, Edifícios de escritórios, Matosinhos. Arq. José Lencastre
Miguel Coelho, Biblioteca Florbela Espanca, Matosinhos. Arq.Alcino Soutinho
ou ao contraste de luz?,
Miguel Coelho, Igreja de Santa Maria, Marco de Canaveses. Arq. Álvaro Siza
David Claerbout, do vídeo "The Bordeaux Piece", 2004
ou a orientação das sombras?,
Miguel Coelho
ou à preocupação com a geometria?
Miguel Coelho, Biblioteca Florbela Espanca, Matosinhos. Arq. Alcino Soutinho
David Claerbout, do vídeo "The Bordeaux Piece", 2004
Certamente tudo isto teve importância mas acima de tudo o que me levou à associação foi a originalidade com que ambos transitam da imagem fixa da fotografia para a imagem movimento do cinema. Claerbout no vídeo, como já vimos, Miguel Coelho nas fotografias onde reinventa artificialmente movimento.
Nestas fotografias,
Miguel Coelho, Casa na Aguda, Vila Nova de Gaia. Arq. Fausto Andrade
Miguel Coelho, Estalagem de São Domingos, Mértola, Portugal. Arq. João Cassiano Santos
Miguel Coelho, Casa La Roca, puerto Pollensa, Maiorca, Espanha. Arq. Joan Riusech, Elisabet Colom
Miguel Coelho, Museu de Arte Contemporânea - Fundacção Serralves, Porto. Arq. Álvaro Siza
Miguel Coelho, Casa La Drassana, Palma de Maiorca, Espanha. Arq. Joan Riusech, Elisabet Colom
Miguel Coelho de forma magnífica divide na mesma fotografia o espaço como se o vissemos de dois pontos de vista, olhamos da esquerda para a direita, como numa sucessão de imagens. Em fotografia não existem muitas formas de fugir às regras do momento fixo, nem tão pouco à rigorosa quadratura da fotografia, mas Miguel Coelho, transforma o quadrado em dois rectângulos e multiplica os pontos de vista do mesmo lugar.Os vídeos de Claerbout como as fotografias de Miguel Coelho são propostas atraentes e simultaneamente interessantes, pois ambos conseguem fotografia e cinema numa mesma imagem e num mesmo vídeo.
David Claerbout, do vídeo "Happy Moment" 2007

Ler mais...

terça-feira, outubro 16, 2007

doclisboa 2007

O saisdeprata-e-pixels faz hoje um ano. Há um ano comecei a escrever sobre fotografia a olhar para o cinema, mais precisamente para o doclisboa 2006, o grande festival de cinema documental que este ano, na 5ª edição, está prestes a começar. Há um ano a restrospectiva do doclisboa centrou-se no realizador Amos Gitai, (n.1950, Haifa). Vi a genialidade dos documentários de Gitai, que explora a História do Médio Oriente incluindo a sua própria história pessoal. Este ano a retrospectiva incide no realizador polaco, Lech Kowalski, que como nos diz o programa “foi o testemunho do apogeu e queda do punk e registou a década de 70 em Nova Iorque”, vale a pena espreitar o site. “Winners and Losers”, o mais recente filme de Kowalski, leva-nos a rever o final do Campeonato do Mundo de Futebol de 2006, exclusivamente a partir dos espectadores italianos e franceses que seguiram a partida pela televisão. Os jogadores em campo nunca os vemos. Estamos em casa, nos cafés, nos stadiums a olhar para os tiques e reações que nos revelam as esperanças e receios, afinal os espectadores são o espelho do que se passa no campo.
William Klein, o fotógrafo amigo de Fellini que fotografou Roma a pensar em “La Dolce Vita”, também ele em 1981, documenta em filme, um outro grande evento desportivo, o Open de Ténis francês, Roland Garros.
Em 1981, os grandes do ténis são Borg, Connors, Lendl, McEnroe, Vilas, Navratilova...Dos vestiários,
às salas de massagens,
aos estúdios de televisão,
aos árbitros,
ao jogo,
às queixas de McEnron, que pergunta ao árbitro porque é que as bolas são da véspera,
ao público,
aos comentadores,
ao vencedor, Borg,
às agências de informação que enviam a notícia para todo o mundo,
“The French” é hoje o único documentário dos bastidores de Roland Garros.

Como já tem sido hábito, para além da retrospectiva, o festival doclisboa divide-se em outras sessões e este ano “Vento Norte” dá-nos o panorama da recente expansão do documentário no Norte da Europa (Dinamarca, Suécia, Noruega, Filândia). Como nos explica a organização, “aclamados em festivais, os filmes nórdicos surpreendem ora pela qualidade formal, ora por um humor insólito. No último Paris Photo,
a maior feira de fotografia, os países nórdicos (Dinamarca, Noruega, Filândia, Suécia e Islândia) foram os países convidados e receberam as honras da casa.
Paris Photo, Novembro 2006, área reservada aos países nórdicos
Anneè Olofsson, the dealer, 2006, Suécia
Heli Rekula, Passing, 2004, Filândia
Trine Sondergaard & Nicolai Howalt, Kromanns Remise #1, 2001, Dinamarca
Eline Mugaas, Youngstorget, 2004, Noruega

“Riscos e Ensaios”, outra secção do doclisboa, está vocacionada, como nos revela a organização, “para debater a forma e a escrita dos filmes, em particular obras arriscadas, que se situam na fronteira entre o documentário e a ficção, diálogo tão antigo quanto a história do cinema”. “Me and my Brother”, 1968, o filme de Robert Frank, recentemente editado pela Steidl,
poderia na perfeição entrar em “Riscos e Ensaios”. É a imaginação de Frank ao serviço do real,
a oscilação constante entre o real, a consulta no psiquiatra de Julius que sofre de catatonia,
à ficção, o imaginário de Julius.
É o filme, que simultâneamente é fotografia
e cinema experimental.

Já em “Sessões Especiais”, podemos ver Spike Lee com o seu “When the Levees Broke”: são os destroços deixados pela passagem do furacão Katrina em Nova Orleães.
Três semanas depois da catástrofe, a 20 de Setembro de 2005, Robert Polidori, o fotógrafo canadiano, está em Nova Orleães para fotografar a cidade onde viveu quando adolescente.
Robert Polidori, Nova Orleães
Robert Polidori, Nova Orleães
Robert Polidori, Nova Orleães
O homem é teimoso e gosta de desafiar a natureza: constroí cidades abaixo do nível das águas, e quando a natureza é impiedosa e enche de água as cidades, como aconteceu em Nova Orleães, os políticos teimam em não querer reconhecer os erros e ignoram as evidências. Polidori trabalha para o “New Yorker” como repórter fotográfico e é um exemplo vivo como o documento não está em crise na fotografia. Polidori foi para o local onde morreram mais de duas mil pessoas e onde meio milhão ficou sem casa. Sob um calor insuportável chegou à cidade ainda submersa. Vazia de habitantes reinavam os perigos: os saques, os roubos, e o pior de todos os fungos patológicos, causados pelos corpos que ainda boiavam. A Steidl, mais uma vez a Steidl, edita as fotografias em “After the Flood”.
“Penso que se devem fazer fotografias de coisas paradas; o cinema é que se deve encarregar das coisas em movimento” diz Polidori. Agora é a curiosidade em ver “When the Levees Broke”, as coisas em movimento depois das imagens paradas.

No programa do doclisboa 2007 lemos o seguinte : “O documentário “foi assunto” e criou-se uma nova consciência da sua enorme riqueza, diversidade e potencialidades”. No ano passado foram mais de 20.000 os espectadores do festival, este ano esperam 30.000. Há um ano, no primeiro post deste blog, questionava se a fotografia documental também era “assunto”e reflectiu-se sobre a questão: está ou não em crise a fotografia documental.
Mostrei novos horizontes e outras abordagens, Jeff Wall, com o seu Dead Troops Talk, foi um dos exemplos. Comparei Dead Troops Talk,
Jeff Wall, Dead Troops Talk, 1992
uma fotografia encenada e manipulada, onde numa só imagem está representada toda a barbárie da guerra, com a fotografia de Nicolas Asfouri da AFP,
um fragmento de guerra, publicada num jornal. Há dias vi esta fotografia no jornal,
quem é que afinal tenta encenar: os fotógrafos artistas ou os fotógrafos repórteres?

As fotografias de Robert Polidori, Edward Burtynsky, Mitch Epstein, são alguns exemplos que persistem em manter vivo o verdadeiro documento que é a fotografia.

Ler mais...