quinta-feira, agosto 23, 2007

John Szarkowski (1925-2007)

Todas as semanas, às quintas-feiras, John Szarkowski no seu gabinete no Museum of Modern Art (MoMA) de Nova Iorque recebia os fotógrafos que aí lhe mostravam os seus portfólios. Durante três décadas assim aconteceu, de 1961 a 1991, Szarkowski que presidia ao departamento de fotografia do museu foi o árbito que descobriu novos talentos e influênciou gerações.

Antes de aceitar o cargo ocupado por Edward Steichen, Szarkowski já era um fotógrafo reconhecido. Apaixonara-se pela fotografia ao ver “End of an Era”, 1938, de Dorothea Lange.
Dorothea Lange, End of an Era, 1938
“Julguei erradamente a fotografia pois vi uma mulher rica, conservadora, que olhava pela janela do seu carro...quando olhei para esta fotografia esclamei Wow, that’s what I want to be...mas quando vinte cinco anos mais tarde trabalhava com Dorothea numa retrospectiva li o título inteiro escrito no envelope onde estava o negativo: “Funeral Cortege – End of an Era in a Small Town”. Afinal tratava-se de um carro funerário e a expressão de severidade era agora de tristeza, mas “the lesson was that it didn’t really change the picture. The picture was just good”, disse Szarkowski numa entrevista, 2004, a Nicole Krauss.

Nas reuniões semanais descobriu fotógrafos cujas obras resultaram no programa das exposições do museu, 160 foi o total de exposições que supervisou.

Logo no início, 1962, Diane Arbus. O portfólio que Arbus lhe mostrou, imagens abstractas que ele já vira no Harper’s Bazaar não lhe interessaram, mas no meio de todas aquelas fotografias uma destoava: “Teenage Ballroom Dancing Champions”.
Diane Arbus, Teenage Ballroom Dancing Champions

Szarkowski ficou maravilhado “that’s the change that happened in her work at about that time”. Para Szarkowski, a obra de Arbus, herdeira da tradição documental, era o exemplo do que ele viria a definir como imagens inconfundivelmente fotográficas.

Não partilhando a visão fotojornalista de linguagem universal do seu antecessor, Edward Steichen, Szarkowski retomou a ideia de autor de Beaumont Newhall, o fundador do departamento de fotografia do MoMA. Com uma visão mais alargada, Szarkowski não se restringiu ao elitismo de autor, o importante na fotografia eram as características visuais que lhe eram intrínsecas e tanto expõe os velhos mestres, Atget, Brassai, Kertész... como promove os novos talentos que descobria nas suas reuniões de quinta-feira, William Eggleston, Zeke Berman, Ray Metsker, Garry Winogrand...

Hoje Szarkowski é acusado por muitos de modernista, pois a fotografia que mostrou enquanto director do departamento fotográfico do MoMA representou ao nível institucional o modelo da fotografia moderna. O conceito de modernidade que se seguiu à segunda grande guerra foi materializada nos textos de Clement Greenberg que preconizava a autonomia das diferentes disciplinas artísticas. A fotografia no entender de Szarkowski tinha autonomia e especificidade própria para ser também ela uma disciplina artística e através de exposições que comissariou, “The Photographer’s Eye” 1964, (que reuniu um conjunto de fotografias de autor e anónimas), “New Documents”,1967, (que reuniu, Arbus, Winogrand e Friedlander), “Looking at Photographs” (1973), e outras, demonstrou que o estilo e tradição documental representada nos Estados Unidos pela “straight photography”, (fotografia pura não manipulada) tinha uma estética própria, que não recorria a métodos que não fossem puramente fotográficos.

Na mesma época mas numa direcção oposta outros artistas deixavam a cópia directa do mundo real para trabalharem a cópia da cópia, a encenação e a construção da própria imagem, questiona-se a autonomia e o autor da obra e assiste-se a uma redefinição da obra de arte. A fotografia era um meio excelente quer para representar ideias quer para a realização de experiências. No princípio, na década de 1960, são os trabalhos de Bernd e Hilla Becher, Edward Ruscha, Bruce Nauman...na década seguinte juntam-se Sherrie Levine, Cindy Sherman, Richard Prince... até que, em 1977, “Pictures” na Artists Space de Nova Iorque, comissariada por Douglas Crimp, é a grande exposição que rompe com o conceito de moldura. Em "Pictures" assiste-se ao cruzamento de diferentes géneros: filme, fotografia e texto, como suporte de projectos conceptuais e a exposição atinge um retumbante êxito.
Modernista ou pouco aberto a esta mudança de paradigma, para Szarkowski a "fotografia criativa não depende da aprovação dos museus. Ela está nos museus não para se elevar a si própria mas sim para elevar aqueles que olham e a vêem".

Em 1991, Szarkowski volta finalmente a pegar numa máquina fotográfica. À semelhança de Allen Greenspan que, durante os 17 anos que esteve à frente da Reserva Federal Americana nunca investiu em acções para não influenciar o mercado, também Szarkowski nunca expôs ou publicou o seu trabalho enquanto esteve no MoMA para evitar e dissipar toda e qualquer confusão de julgamento enquanto Curador de Exposições.
John Szarkowski, Schoolhouse, townof Lincoln, Boyfield County, Wisconsin, 1949

Em 2005, o San Francisco Museum of Modern Art, para celebrar os 80 anos de Szarkowski,
organizou uma retrospectiva do seu trabalho e a exposição chegou ao MoMA, onde Szarkowski dedicou trinta anos da sua vida, no ano seguinte.

No mês passado, no dia 7 de Julho, morreu um dos grandes curadores da fotografia.

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segunda-feira, agosto 20, 2007

Um convite à meditação, os subúrbios de Gregory Crewdson

Em criança, Gregory Crewdson lembra-se de escutar as consultas do pai, psicanalista freudiano. As sessões que ouviu emergirem da cave, na sua casa no Brooklyn, marcaram a sua vida.
Gregory Crewdson, série Twilight, 2001-2002

Para Freud, pai da psicanálise, o fundamental está na relação entre psicanalista e doente. Para anular os sintomas desagradáveis, medos, angústias, desejos sentidos pelo doente, o psicanalista trazia à consciência deste os conteúdos da sua vida psíquica, e na vivência dessas experiências o doente libertava-se dos sintomas. Considerava Freud que os sonhos e actos falhados eram fenómenos psíquicos completos, porque constituídos de significado, e que através da sua análise, utilizando o método das associações livres, o doente transferia para o psicanalista os conflitos que tivera com as pessoas mais próximas.
Gregory Crewdson, Family dinner, da série Twilight, 2001-2002

Á relação que se establecia entre psicanalista e doente chamou Freud de "transfer", e muitas histórias de transferências de neuroses ouviu Crewdson na sua infância.

Viver nos subúrbios, para a classe média/alta americana simboliza a realização do sonho americano, uma casa, um jardim, um carro, um barco...Crewdson escolhe a iconografia do dia a dia dos subúrbios
Gregory Crewdson, da série Twilight, 2001-02
Gregory Crewdson, da série Twilight, 2001-02

para fotografar não a ilusão do sonho desejado e realizado, mas o contraste da tranquilidade aparente destes locais com um sem fim de fantasias e paranoias de quem os habita. Nas suas fotografias, vemos o contraste da ideia manifesta, a fachada perfeita e tranquila do lar, com a ideia latente, os fantasmas e paranoias que habitam o interior de cada um.
Gregory Crewdson, da série Twilight, 2001-2002

Gregory Crewdson, Backyard romance, da série Beneath the roses, 2004
Gregory Crewdson, da série Twilight, 2001-02

Ao sonhar, as crianças tal como os habitantes dos subúrbios, também realizam os seus desejos. Curtos, claros e coerentes, os sonhos das crianças não necessitam da cadeia de associações livres para se chegar ao latente, ao contrário dos sonhos dos adultos cuja deformação elaborada nos impede compreender. Freud chamou,"realização alucinatória do desejo", à realização de um desejo frustrado no sonho da criança. No sonho do adulto, a censura que depende da moral de cada um, exerce a sua actividade relegando para a obscuridade os desejos inaceitáveis. Mas quando mal recalcados esses desejos inaceitáveis soltam-se das profundezas da psique e provocam angústias e mal estar. O psicanalista tem como objecto destruir os mecanismos de defesa para fazer emergir por detrás dos sintomas os fantasmas inconscientes que habitam em todos nós.
Gregory Crewdson, da série Twilight, 2001-02
Crewdson é fotógrafo mas à semelhança do psicanalista, fotografa as imagens latentes como se revelasse o que está por detrás das fachadas. Bill Owens em “Suburbia”, que vimos no post anterior, levanta o véu deste universo que habita as periferias das cidades, o sonho americano uma vez realizado cria vazio e um certo mal estar, e estes sintomas habitam também as suas fotografias.

Crepúsculo é a hora em que termina o dia antes de chegar a noite, é a hora mágica porque percepcionamos os efeitos transitórios da luz que se transforma em escuridão,
Gregory Crewdson, da série Twilight, 2001-02
é a hora da passagem do visível ao invisível e é a hora que Crewdson escolhe para fotografar, porque a melhor para captar a transitoriedade dos nossos estados psicológicos. Fotografar a vida dos subúrbios ao crepúsculo,
Gregory Crewdson, da série Twilight, 2001-02
é para ele o local e a hora perfeita para congelar, a partir da fotografia, o momento da passagem do inconsciente (latente) ao consciente (manifesto).

É o próprio que diz que toda a sua obra é pensada em termos psicológicos e o mundo uma metáfora dos seus estados. No trabalho de elaboração onírica há um processo característico e essencial ao sonho, trata-se da transformação das ideias em imagens, e a este mecanismo chamou Freud «regressão». Crewdson utiliza a fotografia à semelhança da regressão, um meio que transforma as suas ideias em imagens
Gregory Crewdson, da série Twilight, 2001-02
como ele diz “I’m interested in using the iconography of nature and the american landscape as surrogates or methaphors for psychological anxiety, fear and desire...everything deals with my own psychology. These elements are used as tropes to investigate my interior life”.

Nos filmes assistimos à narração de uma história ficcional, nos sonhos fragmentos de imagens estranhas e absurdas são difíceis de ligar, contudo quando nos conseguimos lembrar narramos os sonhos como se fossem uma história. À narração que completa os fragmentos dos sonhos chamou Freud «elaboração secundária». Crewdson é influênciado pelo cinema, os cenários que constrói, as luzes artificiais com que recria o crepúsculo, a equipe que o acompanha na produção, os meses de planificação, tudo parece cinematográfico.
Gregory Crewdson, da série Beneath the roses, summer 2003
Gregory Crewdson, da série Beneath the roses, summer 2003
Mas Crewdson diz-se fotógrafo e a diferença entre o cinema e a fotografia reside no silêncio e na estática das suas imagens fotográficas. Através das fotografias (fragmentos de imagens), estranhas e absurdas, Crewdson narra uma história, as histórias dos sonhos.
Gregory Crewdson, da série Twilight, 2001

Vimos no post anterior que os subúrbios, habitats desejáveis quase paradisíacos, funcionam como os sonhos das crianças, numa realização alucinatória dos desejos mais comuns. Nos subúrbios de Crewdson descemos às profundezas da psique,

Gregory Crewdson, da série Beneath the roses, Winter, 2005

e na hora mágica do crepúsculo, no entre luzes, fantasias e transgressões libertam-se da censura e assaltam os habitantes destes lugares. Para Crewdson os subúrbios
Gregory Crewdson, da série Twilight, 2001-02

são os locais e o crepúsculo o momento propício onde o estranho e o inexplicável se verificam.
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sábado, agosto 18, 2007

Entre a cidade e o campo, os subúrbios na América

Crescimento demográfico, taxas de juro baixas e economia sustentável são as premissas para a construção de novas casas. Mas, nos últimos anos, a América ignorou o crescimento demográfico a favor dos especuladores imobiliários e construiu novas casas como se vivesse um novo baby boom. O resultado são agora casas vazias a preços reduzidos e os subúrbios estão à venda.
“Real Estate Opportunities”, 1970, é mais um livro de Ed Ruscha. Nesta fotografia
Edward Ruscha, do livro "Real Estate Opportunities",1970

“For Sale” é quase invisível, pois a estrada ocupa o primeiro e principal plano, “são propriedades à venda em Santa Ana, Downey...locais onde por vezes as coisas mais banais são para mim importantes...gostei imenso de ter tirado estas fotografias numa tarde...”, comenta Ruscha, e “Real Estate Opportunities” é um livro fiel ao seu estilo sem estilo, pois para ele "it's not only photography that interests me, it's the whole production of the books...I never take pictures just for the taking of pictures; I'm not interested in that at all. I'm not intrigued that much with the medium...I want the end of product; that's what I'm really interested in. It's strictly a medium to use or to not use..."
Edward Ruscha, provas de contacto de "Real Estate Opportunities",1970

Walker Evans começou a fotografar de forma directa e simples “as coisas mais banais”, bombas de gasolina, barbearias, casas nas pequenas cidades do Midwest,...e com ele nasce uma nova iconografia visual tipicamente americana.
Com o baby boom do pós-guerra os subúrbios seduziram. Em “Homes for America”, 1966-67, Dan Graham fotografou as novas casas construídas de forma rápida e standardizada
Dan Graham, Living Room, "Model Home", New York City 1966
Dan Graham, Homes for America, 1966-67

que proliferaram pelo país e ironizou as combinações possíveis que os catálogos de venda permitiam aos novos locatários.


Em 1978, “Alteration to a suburban house” é o culminar da sua reflexão sobre a vida nos subúrbios.
Dan Graham, Alteration to a suburban house, 1978

Constrói uma casa sem fachada, semelhante à casa Farnsworth de Mies van der Rohe,
Mies van der Rohe, casa Farnsworth, 1945-51

onde no interior um espelho dividia a frente das traseiras. O espelho permite a dupla exposição, o transeunte vê-se simultaneamente na sala de estar da casa e na rua, “I look in and see muself looking out...there is no interior. What the huge window reveals is not a private space but a public representation of conventional domesticity, an image of socially accepted normalcy”, refere Graham. ”. Para Graham os subúrbios são a uniformização e a falta de privacidade, é o ver e o ser visto.

Lewis Baltz nasce com o baby boom e cresce em Newport Beach, um subúrbio de Orange County. “The Tract Houses”, 1969-71, é uma das suas primeiras séries e seguem-se outras “Prototype works” 1967-76. Baltz vê as novas construções como linhas de montagem, “Like automobiles, houses were sold on a price scale to fit family budgets, from less than $10.000 to about $150.000” e fotografa as casas desabitadas, porque ainda em construção, nos subúrbios de São Francisco.
Lewis Baltz, nº 4, The tract house, California, USA, 1969-71
Lewis Baltz, nº9, The Tract house, California, USA, 1969-71

O trabalho repetitivo das séries é reflexo da época, vive-se numa sociedade de consumo e na arte é a influência pop e minimal.
Lewis Baltz, Sausalito, Prototype House, California, USA, 1968

Em 1972, é “Suburbia” de Bill Owens.
O livro é ambíguo, pois auto-crítico também. Com mulher e filhos, Owens vive a vida daqueles que fotografa, a vida da classe média que vive o sonho americano do doce lar com os barbecues nas traseiras.
Ás fotografias Owens junta as impressões de quem aí vive, a aparente felicidade dada pelo consumo.

“Our house is built with the living room in the back, so in the evenings we sit out front of the garage and watch the traffic go by”


“I bought the Doughboy pool for David and the kids and now no one wants to take the responsibility for cleaning it”.
“We’re really happy. Our kids are healthy, we eat good food and we have a really nice home”.
“How can I worry about the damned disches when there are children dying in Vietnam?”

Recentemente Gregory Crewdson recria o universo das periferias suburbanas, e no crepúsculo, criado artificialmente pelas luzes que utiliza, Crewdson procura sensações de mistério no meio da iconografia do dia a dia dos subúrbios.
Gregory Crewdson segue no próximo post.
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segunda-feira, agosto 13, 2007

O Mundo em imagens

Bolsas de valores e montanhas russas assemelham-se nas emoções que provocam. Na subida é o riso de alegria, na descida é o grito do medo, no final ninguém resiste à tentação de voltar a formar bicha para uma nova viagem.

Na semana passada, a descida das bolsas e os gritos de medo que a acompanharam foram provocadas pelo mercado imobiliário americano. A subida foi longa, cinco anos, e especulativa. Tinha que descer e desceu. Foi o pânico em todas as bolsas. A lenga lenga do costume: não ponha todos os ovos no mesmo cesto, como os gestores da banca gostam de ensinar, já não funciona em épocas de crise, a correlação é elevada.

Na semana que passou, revistas e jornais encheram-se de imagens das bolsas. Lembrei-me de Andreas Gursky e a sua recente fotografia da bolsa do Kuwait.

Andreas Gursky, Kuwait Stock Exchange, 2007, C- Print

Agora para além da Europa, América e Ásia, os estados Árabes do Golfo Pérsico, Gulf Cooperation Council (GCC), Bahrain, Kuwait, Omão, Qatar, Arábia Saudita e União dos Emirados Árabes, entram na corrida das bolsas.
A transformação é visível, há 30 anos atrás, o Dubai, que lidera a corrida, pouco mais era que um deserto onde viviam tribos de beduínos.

René Burri, Abu Dhabi, United Arab Emirates, 1975

Hoje a miragem de um oásis no deserto é real. Dubai tornou-se na Hong Kong do médio oriente. O que mudou? A forma como se aplica o dinheiro. Há 30 anos o dinheiro do petróleo era transferido para os bancos da Suiça e gasto na compra de armas. Agora uma nova classe política diversifica para além do petróleo a economia da região, e os investimentos do sector privado passaram de 10% para 60% nos últimos 10 anos. A par deste desenvolvimento económico, extravagantes projectos turísticos estão em curso. Em 2004 foi criado o Abu Dhabi Tourism Authority (ADTA). O que fazer para aumentar o turismo? Depois de semanas de “brainstorming” a resposta era simples, arte e educação. O Sheik bin Tahnoon al-Nahyan conta “In all the studies we have undertaken, culture has been shown to be a strong driver of the kind of tourism Abu Dhabi has identified as its primary market...”
E identificada a variável para a promoção do turismo, lançaram-se na “compra de cultura”, seguiram para Paris e compraram a marca Louvre e Sorbonne, seguiu-se o Guggenheim, Yale,...depois foram a Bilbao estudar o sucesso do novo museu, que desde a abertura,1997, recebeu mais de 9 milhões de visitantes. Para replicar o modelo de Bilbao a ADTA contrata os melhores arquitectos, Frank Gehry, Zaha Hadid, Jean Nouvel são só os nomes mais sonantes diz Mubarak al –Muhairi, director de ADTA. Agora Saadiyat Island será a nova meca turística, museus, campos de golfe, 29 hotéis de luxo, uma biennal para as artes, enfim o paraíso na terra, pronto em 2012. As contas estão feitas e o sucesso é garantido.

Este ano no Dubai estreou a feira Gulf Air Fair, com o suporte do Dubai International Financial Centre. Martin Parr também foi e não deixou de fotografar um Dubai que mais parece Las Vegas, cidades rodeadas de deserto onde real e artificial já não se distinguem.
Martin Parr, DIFC, Gulf Art Fair, Dubai, 2007

Anthony Hopewell, room 852, Riviera Hotel, Las Vegas, Nevada, 2003


Bruce Davidson, "The New York Street", Las Vegas, 1997


O mundo transformou-se com as novas tecnologias. Hoje com um Photoshop produzem-se imagens reais que já não precisam do mundo real e quanto mais se imita o real, mais o mundo se transforma em artificial. Dubai é hoje exemplo, Saadiyat Island será num futuro próximo. Reproduzem-se clichés que vimos nos filmes, na publicidade, nos media em geral e vivemos satisfeitos num mundo que se assemelha cada vez mais a um décor.
Peter Fischli, David Weiss, Visible world, 2000

É a ambiguidade desta nova existência que interessa agora aos fotógrafos.
A publicidade invadiu o nosso imaginário, e agora desejamos viver como se fizessemos parte desse mundo imaginado.

Peter Bialobrzeski, Shangai, 2001

Peter Bialobrzeski, Shangai, 2001


Numa instalação vídeo, “Product Displacement”, 2002, de Filipa César, que está agora em exposição na Gulbenkian, “50 anos de Arte Portuguesa”, a artista filma como se os personagens que vemos vivessem nessa casa-catálogo.



Do vídeo, "Product Displacemente"de Filipa César, 2002


Como a própria refere no boletim de inscrição “...em pano de fundo, interessa-me apresentar cenários urbanos,..., que vão para além dos espaços funcionais e de passagem,..., para serem, espaços multidisciplinados aonde não só prevalece a indefinição das fronteiras entre privado, público e natureza mas também realidade e ficção (ex. Mega-centros comerciais autênticas aldeias dentro de cidades”.

Outros, como Thomas Demand, constroiem maquetes de espaços arquitectónicos, cópias de fotografias que vê nos meios de comunicação. Depois de fotografadas as maquetes são destruidas. É um novo mundo que parece descartável.

Thomas Demand, Kitchen, 2004


O mundo hight-tech e globalizado de Gursky é também manipulado, e perante as enormes fotografias o real é transformado em hiperreal.

Muitos dizem que o mundo se “Disneyficou”, pois é desenhado e construído como se fosse autêntico, e o que é agora autêntico parece-nos artificial.
Marion Faller, Ed Krier's Independence Day Display, Nokomis Parkway, Cheektowaga, New York, 1998

Olivo Barbieri, Shangai, 2001

Thomas Struth, Manzhouli, Inner Mongolia, 2002


Agora todos nós sabemos que a fotografia já não é a cópia do real, como durante anos se pensou que era, e quando olhamos para uma imagem interrogamo-nos: será uma miragem ?...
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