terça-feira, julho 03, 2007

Pine Flat de Sharon Lockhart

No Centro de Artes Visuais, CAV, em Coimbra, já se pode ver a segunda parte de Edit! Fotografia e Filme na Colecção Ellipse.
Se na primeira parte de Edit! fomos até Los Angeles e mergulhámos nas piscinas de Ed Ruscha, porque não sairmos de Los Angeles e irmos até Pine Flat com Sharon Lockhart?
Pine Flat, conjunto de fotografias e filme, é um dos trabalhos de Lockhart que a Fundação Ellipse adquiriu há uns meses e que agora se pode ver no CAV.

É Verão e porque não fugir do stress de Los Angeles, que já conhecemos, e procurar refugio num local mais aprazível? Já estamos em Julho e para muitos as férias já começaram. Mas para os que ainda não foram, porque não viajar através do mundo artificial que é a fotografia? Hoje tudo é artifício e através da fotografia transfomamos o viajar exterior e literal num viajar interior e imaginado. Se nos primórdios da fotografia, viajava-se pelo Oriente, (Palestina, Síria, Egipto...) através dos álbuns fotográficos, hoje viajamos no mundo virtual da internet.
Para nos orientar nesta viagem imaginária (ou real), feita de fotografias, utilizamos mapas geográficos que representam o território dessas imagens.
Viajamos sempre com mapas que também eles transformam o território num conceito imaginário. É difícil encontrar Pine Flat nos mapas, e não é fácil lá chegar. Foi acidentalmente que Lockhart veio dar a esta vila nas pregas da Sierra Nevada. Utilizemos então o mapa feito à mão que a artista utilizou.
Mapa de Pine Flat, Califórnia de Sharon Lockhart, 2006
É na cidade em baixo, Bakersfield, que os habitantes de Pine Flat encontram trabalho.
Bakersfiled
Com um grande crescimento populacional nos últimos anos, Bakersfield, uma cidade que vive da agricultura e da exploração do petróleo, é mais uma das muitas pequenas cidades da América. Mas à esquerda uma seta indica, que estamos perto do Mojave, e lemos Grapes of Wrath,
será o livro The Grapes of Wrath de John Steinbeck? Por cima de Salinas, o nome John Steinbeck foi apagado, aqui trata-se do filme A leste do Paraíso, que se desenrola em Salinas Valley interpretado pelo jovem James Dean e inspirado no livro de J. Steinbeck. Mas perto do Mojave será que Lockhart quis assinalar o percurso migratório dos agricultores, que deixaram o Oklahoma quando o grande celeiro da América ficou reduzido a pó?
Do livro An American Exodus, Dorothea Lange, Paul Taylor, 1939.
Oklahomans on US 99 in the San Joaquin Valley, California, 1938
Ao deixarem as suas terras para trás migraram para outros estados, e a Califórnia foi invadida.
“Novo México e as montanhas. Muito distante, sinuosa e elevando-se para o céu, a linha das serras. E as rodas dos veículos rangiam, os motores ardiam e o vapor espirrava da tampas dos radiadores...” lemos em “As vinhas da ira” e vemos nas fotografias de Dorothea Lange essa migração terrível.
Dorothea Lange, March 1937
Entering California through the desert, Oklahoma family on US 99
Atravessar o Mojave é difícil. Mojave é o deserto que Edward Weston imortalizou no tamanho surreal de Hot Coffee,
Edward Weston, Hot Coffee, MOJAVE DESERT, 1937
e do carro queimado que certamente não resistiu à dureza da viagem.
Edward Weston, Burned Car, MOJAVE DESERT, 1937

Depois do deserto seguiam pela route 99 de San Joaquin Valley.
Dorothea Lange, US 99, San Joaquin Valley, November 1938
Dois anos depois, no verão de 1940, é a vez de Ansel Adams e Beaumont Newhall (o pai da célebre History of Photography) passarem na route 99. De visita aos Adams em S. Francisco, não resistem ao seu convite de passarem alguns dias na casa em Yosemite Park. “Depois de um longo caminho de carro pelo tórrido San Joaquim Valley chegamos ao parque”, lemos nas notas de Nancy. As notas de Beaumont são muito diferentes. Com Adams ao volante, falavam de fotografia e o entusiasmo acabou na criação de um departamento de fotografia para o MoMA. Como recorda Newhall, quando chegam à casa no parque, Ansel, telefona ao seu amigo David McAlpin que já financiara a exposição “The History of Photography” organizada por Newhall no MoMA, em 1938. A casa dos Adams ficava no vale perto das cascatas.
Yosemite Valley, Ansel Adams, 1927
McAlpin, também entusiasmado com o projecto fala com Nelson Rockefeller e a resposta é o sim. No jardim debaixo de uma “manzanita”, recorda Newhall, comemorámos tomando bebidas frescas. A 17 de Setembro Rockefeller e o conselho de administração do MoMA , aprovam o novo departamento de fotografia, será o primeiro museu no mundo a fazê-lo. Ainda bem que route 99 é longa...

Mas a Califórnia é terra de (i)migrações, e muito antes da migração do Midwest foi a imigração para a Sierra Nevada, em 1848, em busca do ouro. Vieram pelo Oceano Pacífico. Em S. Francisco ficou o nome, Golden Gate, para recordação. Já vimos a pepita de ouro de Carleton Watkins e a maravilhosa odisseia que foi a corrida ao ouro, registamos agora a imigração dos chineses na construção do caminho de ferro na Sierra Nevada.
Alfred A.Hart c.1868, Railroad construction at Secrettown, Sierra Nevada
Afastados dos trabalhos na procura do metal precioso, restava-lhes a construção do Central Pacific Railroad em que 90% dos trabalhadores eram chineses.
Falta Visalia, a outra cidade abaixo da montanha de Pine Flat.
Visalia servirá de cenário para o filme Ken Park de Larry Clark,
Do filme Ken Park de Larry Clark
que também deixa Tulsa no Oklahoma, para registar, agora em filme e com actores a deliquência juvenil das novas gerações.
Larry Clark, Livro Tulsa, Lustrum Press, 1971
Do livro Tulsa
Em 2006, o festival Indie Lisboa apresentou os recentes filmes de Clark. Sobre o filme Ken Park, a irmã de Lockhart escreve o seguinte: “A Sharon disse-me que quando estava a ver este filme, havia uma cena onde ela pensava ter reconhecido um dos rapazes do filme dela. Talvez um dos miúdos tivesse deixado a montanha para viver com outro parente qualquer, ou tivesse ido par uma escola especial por ter sido expulso da normal, ou talvez não existisse nenhuma razão para ela pensar que um dos miúdos dela andava a partilhar cachimbos de àgua e histórias tristes com outros putos à frente da câmara do Larry Clark. Ela disse-me que tinha a certeza que era ele, e teve de ver e rever a cena várias vezes até se aperceber, com algum sentimento de alívio, acho eu, que estava enganada”.

Vamos então subir à montanha e ver os miúdos de Pine Flat, que aí reinam durante o dia, enquanto os pais desceram à cidade para trabalhar. Que fazem eles? Foi isso que Lockhart acabou por transformar em filme. Longe de uma história narrativa, o filme são sequências de doze retratos, de crianças sózinhas ou em grupo, captados sempre com a câmara fixa. O ritmo é vagaroso como vagarosa é a vida em Pine Flat. No filme as crianças habitam sempre a paisagem; no riacho a brincarem,
na floresta coberta de neve,
no baloiço feito num dos braços de um enorme carvalho,
dormindo no meio das folhas,
lendo um livro no campo,
esperando a camioneta da escola que terá de subir as curvas da montanha...
O som imprime outro ritmo, é o ruído de um avião que transtorna a cena bucólica, acidente do acaso que Lockhart optou por perservar, como também perserva o ruído do motor da camioneta que levará a criança à escola, outras vezes serão os risos e o mergulhar no riacho para apanhar um peixe, outras ainda o som de alguém que não vemos, que na montanha coberta de neve de forma repetida vai gritando cada vez mais alto “Ethan where are you?”...
As fotografias, retratos no estúdio sob um fundo preto, num celeiro adpatado, foram feitos também de forma natural. Sem adereços os miúdos vestiam o que queriam e iam quando queriam.
Embora em estúdio, forma inversa do filme, revelam-nos pistas, quer através dos gestos ou vestuário de outras actividades não filmadas. Lockhart regista os comportamentos habituais e as actividades destas crianças no seu quotidiano.
Pine Flat, é o rosto de uma América rural que julgavamos já não existir, mas até quando Lockhard pode suspirar de alívio ao ver os filmes de Larry Clark?

Nota: Pine Flat esteve em exposição no Museu do Chiado de Outubro a Janeiro deste ano. O Museu adoptou o formato que Lockhart faz para as galerias. Em vez do filme, separado por um intervalo, dois segmentos em loops contínuos eram mostrados cada dia da semana. O mesmo bilhete serviu para visualizar as seis sessões.

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sábado, junho 30, 2007

Roma

Ontem ao ver a programação da Maison Européenne de la Photographie em Paris, Italie-doubles visions despertou-me a atenção. A exposição confronta diferentes olhares de fotógrafos de gerações e nacionalidades diferentes, sob um tema comum, a Itália. Veio-me à memória o fascinante livro Extinção de Thomas Bernhard. Toda a temática de Extinção, gira à volta de um local, a região da Alta Aústria, onde o escritor nasceu e cresceu. Com uma narrativa que se aproxima de uma “partitura”, as ideias sucedem-se, repetem-se, enredam-se, girando como que numa espiral. Mas o narrador, só consegue viver em Roma “...Até que vim para Roma. Até que o meu amigo Zacchi me arranjou um apartamento na Piazza Minerva
Do livro Rom, Piazza Minerva, Panteão, c. 1858, Anónimo.
...Do Hassler desfrutei, logo no primeiro momento, essa vista sobre Roma para além da Praça de Espanha e respirei fundo e tive a sensação de estar salvo. Daqui já não vou sair mais, pensei para comigo nesse primeiro momento. Estava à janela e dizia para mim próprio, estou aqui e aqui vou ficar, daqui já nada me faz sair. E as minhas contas saíram certas, fiquei em Roma e já daqui não saí. È verdade que gostei muito de todas essas outras cidades, mas nenhuma teve em mim uma acção existencial tão profunda. Em todas essas cidades vivi bastante tempo ou até muito tempo, mas nunca me senti nelas em casa. A todas essas cidades me afeiçoei, mas nenhuma se tornou por isso a minha cidade. Adoro-as a todas, Lisboa sobretudo, Varsóvia, Cracóvia, Palma, mesmo Viena e Paris, e Londres também e Palermo, mas em nenhuma dessas cidades eu aguentaria viver hoje durante bastante tempo. Deixei-as para atrás, sem ter a sensação de ter perdido uma coisa que me pertencia, que era inteiramente minha. Tive por vezes a ideia de que também poderia passar em Lisboa tantos anos como em Roma, mas depois sempre me acudia à memória o meu tio Georg com as suas palavras sobre aquela que é uma cidade provinciana. Passei em Lisboa o tempo mais agradável da minha vida, mas não como em Roma, o melhor. Há em Lisboa, como em nenhuma outra cidade do mundo, o que eu classifico de natureza da arquitectura. Em Lisboa, este conceito atinge a perfeição, Gambetti, é pena que você nunca tenha tido a oportunidade de ir a Lisboa. Foram os meus anos mais agradáveis, provavelmente também os mais felizes. Mas no fim de contas Lisboa não foi realmente a cidade ideal para a minha cabeça, que, em última análise, sempre reclamou o meu maior interesse, ao passo que Roma o foi sempre...”.


No século XIX muito ainda estava por descobrir, e os fotógrafos podiam ainda propor imagens inéditas. O livro Rom, In Fruhen Photographien 1846-1878, é uma selecção de fotografias de anónimos sobre Roma, ainda antes da invasão turística.
Pórtico de Ottavia, c.1870, do livro Rom
Convento Somaschi, c. 1870, do livro Rom.
Panteão, c.1853, do livro Rom

Cem anos depois, na década de 1950, Roma de William Klein não será muito diferente da Roma de Frederico Fellini. Nesses anos a fotografia estava próxima do neo-realismo cinematográfico, e o cinema próximo da “street photography”.
Em 1956, Fellini está em Paris para apresentar “ I Vitelloni”, 1953. Klein tem uma grande admiração por Fellini e telefona-lhe: “Estou agora mesmo a ver o seu livro New York, porque não vem para Roma e me ajuda no meu próximo filme? Será meu assistente.”, recorda-se Klein numa entrevista ao jornal Libération. Mas que livro era aquele que Fellini tinha defronte dos olhos?

Em 1954, Klein a viver em Paris regressa a Nova Iorque, cidade onde cresceu e que simultâneamente odeia e ama. Aceita trabalho na Vogue e aproveita para fotografar a cidade: “Provocava as pessoas, dizia-lhes Hold it! don’t move! Hey, look this way!, as pessoas perguntavam para o que era e eu respondia-lhes The news! Wow!”. Alexander Liberman, o director artístico da Vogue dirá “those pictures had a violence I’d never experienced in anyone’s work”. Klein tal como Fellini regista os pequenos momentos da vida, o grotesco ao lado do belo, com uma visão ousada e panôramica. Nova Iorque de Klein é um outro universo, tal como Roma, o será em “La Dolce Vita”, cinco anos mais tarde.
É a mesma liberdade ilimitada e visão extravagante que os une, Fellini no cinema, Klein na fotografia. Fellini criava um cinema genuinamente moderno, diferente dos filmes épicos da época, como Ben-Hur, e procurava uma nova forma de contar histórias. Klein vai aos limites do que à época se fazia em fotografia, “ The kinetic quality of New York, the kids, dirt, madness - I tried to find a photographic style that would come close to it. So I would be grainy and contrasted and black. I’d crop, blur, play with the negatives”.
Para Klein é inevitável não aceitar o convite e segue para Roma, mas o filme atrasa-se, Giulietta Masina adoece, o pai de Fellini morre, “andei então por Roma, estavamos em 1956, ia às praias de Ostie. Essa gente gostava de posar...” conta Klein.

Em Roma é difícil não tropeçar em estátuas, fontes, ruínas, monumentos...
William Klein, do livro Rome, 1956
mas não é essa a Roma que Klein fotografa, é o dia a dia da gente comum nas ruas.
Novamente a utilização das grandes ângulares, para captar o máximo de coisas.
William Klein, do livro Rome, 1956

Admirador de Fellini, Klein vira em Paris “I Vitelloni”, os inúteis, filme em que Fellini capta de forma magnífica a vaidade e a imaturidade daqueles jovens...jovens que são homens, ou ficarão crianças para sempre?
William Klein, do livro Rome, 1956

O que fazem eles? jogam? perseguem raparigas? sonham? como os cinco personagens de “I Vitelloni” os inúteis?
Neste filme o pai de um deles, embora de baixa estatura usa ainda o cinto para bater no filho, já homem. Nesta fotografia de Klein,
William Klein, do livro Rome, 1956
este homem de porte pequeno e mãos nos bolsos, sugere uma ameaça... podia ser o pai de Fausto, que com 30 anos ainda tem medo do pai...
Mas se o cenário de “I Vitelloni” é Rimini, terra natal de Fellini, Roma será o cenário de “La Dolce Vita”, 1960.
Em New York segui o modelo do New York Daily News, diz Klein “ I saw the book as a monster big-city Daily Bugle, with its scandals and scoops, that you’d find blowing in the streets at three in the morning. The New York book was a visual diary and it was also a kind of personal newspaper, I wanted it to look like the news…I was a newspaperman”. Agora é Mastroianni, que no papel de Marcello, também é jornalista. É o mundo veloz e sedutor do jet-set de Roma onde os paparazzi estão em toda a parte. Será o “scoops and scandals” de Roma. Marcello, gosta de pensar que está na sociedade sem fazer parte dela.
O contágio é mútuo, e não será esta fotografia de Klein
William Klein, do livro Rome, 1956
que levará Fellini a abrir
Fellini, La dolce Vita, 1960
Fellini, La Dolce Vita, 1960
e terminar “La Dolce Vita” com os novos bairros de Roma?
Fellini, La Dolce Vita, 1960
Fellini, La Dolce Vita, 1960
Fellini, La Dolce Vita, 1960

Agora é o livro Tutta Roma, 2006, de Martin Parr. Vivemos com a necessidade de fazer viagens, de fazer qualquer viagem, é a vontade de ir a Roma porque alguém nos disse, “tens de ir a Roma ver a Capela Sistina...”. Parr fotografa a Roma dos turistas, que vão a toda a parte e vêem tudo o que lhes disseram para ver. Com o seu humor habitual, estes turistas de máquinas em riste sempre prontos a captar pela enésima vez os monumentos já vistos e revistos em imagens.
Martin Parr, do livro Tutta Roma, Coliseu, 2006
Do livro Rom, Coliseu, c.1860
Martin Parr, do livro Tutta Roma, Forum Romano, 2006
Do livro Rom, Forum Romano, c.1858
Martin Parr, do livro Roma, Fonte de Trevi, 2006
Do livro Rom, Fonte de Tartarugas, c.1868

“...Com a invenção fotográfica, isto é com o começo desse processo de estupidificação há muito mais de cem anos, o estado de espírito da população mundial começou a piorar e tem vindo piorando continuamente. As imagens fotográficas, disse eu a Gambetti, puseram em marcha esse processo mundial de estupidificação e ele atingiu esta velocidade efectivamente mortal para a humanidade no momento em que essas imagens fotográficas adquiriam movimento. Hoje e de há décadas para cá, a humanidade só olha estupidamente essas imagens fotográficas que são mortais e está por elas como que paralisada. Na viragem do milénio, o pensar já não será possível para esta humanidade, Gambetti, e o processo de estupidificação, que foi posto em marcha pela fotografia e que, com as imagens em movimento, se tornou um hábito a nível mundial, estará no apogeu...” T.Bernhard.
E como tantas vezes repete o narrador de Extinção “...pensei eu, em pé à janela, olhando para a Piazza Minerva, em baixo, e depois mais adiante, para o Panteão...” este olhar que o narrador vê através da janela do seu apartamento, é agora assim,
Martin Parr, Piazza Minerva, e Panteão, do livro Tutta Roma, 2006

“Existir num mundo assim, só já dominado pela estupidez, muito dificilmente já será possível, Gambetti, disse eu a este, pensei eu agora junto da sepultura aberta, e será bom que nos suicidemos ainda antes que esse processo de estupidificação do mundo se realize na totalidade. Vistas as coisas assim, é lógico, Gambetti, que na viragem do milénio, aqueles que existem do pensamento e pelo pensamento já se tenham suicidado”. T. Bernhard.

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quinta-feira, junho 28, 2007

Cascais e a vela

Dizem os entendidos que Cascais tem o melhor campo de regatas da Europa. Agora, esta vila outrora de pescadores, transformou-se na capital da vela. “Em terra, uma compacta multidão distribuía-se pelas muralhas da cidadela; no mar grande número de embarcações de recreio embandeiradas em arco, flutuavam nas azuladas águas da formosa angra...”, podia ser a descrição da actual baía de Cascais,


mas corresponde à descrição que o Diário de Notícias no dia 4 de Outubro de 1896 faz quando a baía de Cascais servia de campo para mais uma regata internacional. Se, à época, Cascais recebia nesse dia mais de seis mil visitantes, hoje, só em velejadores e respectiva comitiva ultrapassam em muito esse número. Está tudo a postos para o tão prestigiado evento que é o campeonato do mundo da vela olímpica, cuja cerimónia de abertura é já no próximo dia 2 de Julho.
No passado sábado inaugurou no Centro Cultural de Cascais, a exposição “História da Vela em Cascais”.

Desde finais do século XIX que a baía de Cascais é rota das grandes regatas internacionais e a exposição relata a história da evolução da prática da vela .
Em 1870 a família real escolhe Cascais como estância de veraneio e com ela vem a nobilitação da vila. D.Luis, o monarca, é um amante do mar e tudo fará para promover o desporto da vela. É ele que inculcará a paixão pelo mar ao seu filho, D.Carlos, que será timoneiro em muitas das regatas que teram lugar na baía de Cascais. E é com a família real, que a exposição inicía a “História da vela em Cascais”, ilustrada por muitas fotografias.
Em 1938 é criado o Clube Naval de Cascais.

Clube Naval de Cascais, fotografia da colecção da família Bello

Dez anos depois, 1948, dois dos seus sócios fundadores, Fernando e Duarte Bello, trazem para Portugal, pela primeira vez na história da vela, a medalha de prata dos Jogos Olímpicos realizados em Londres.

Praticantes da modalidade Star, foi-lhes distribuído um barco onde nunca haviam corrido e que só conheciam por fotografia.

Os irmãos Bello no seu Star, fotografia da colecção da família Bello
Com a medalha Olímpica, a vela em Portugal atinge um dos seus melhores momentos graças a estes velejadores que arrastaram para a prática muitos entusiastas.
Como engenheiro, imbuído da curiosidade científica, Duarte Bello, foi sucessivamente adaptando o seu barco. Em casa, na garagem transformada num pequeno estaleiro, inventou a boeira, técnica que lhe permitia ganhar avanço aos concorrentes.


Fotografias da colecção da família Bello

Em terra, ficam o registo de outras dificuldades, o transporte dos barcos,


Todos ajudam a mudar o pneu furado, fotografias da colecção da família Bello

e o banho inevitável que o vencedor terá de enfrentar.

Campeonato da Europa de Star no Clube Naval de Cascais, 1962, vencedor Duarte Bello, fotografia da colecção da família Bello

Olhar para o álbum fotográfico da família de Duarte Bello, foi um privilégio, e quero agradeçer a Maria do Rosário Bello a sua simpatia e confiança em me permitir partilhar neste post algumas dessas imagens.

Fotografia retocada a cor, colecção família Bello

De 2 a 13 de Julho, da baía de Cascais, deste excelente local para campeonatos de vela, sairão os melhores velejadores para os jogos Olímpicos de Pequim.
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terça-feira, junho 26, 2007

"Sursum Corda"

O Museu da electricidade em Lisboa, no âmbito da Trienal de Arquitectura de Lisboa, apresenta uma exposição sobre a obra de Siza Vieira.
Museu da Electricidade

José Manuel Rodrigues, viveu muitos anos na Holanda, e conhece como ninguém a luz de Vermeer.
Durante dez anos, 1980-90 trabalhou na Academie van Bouwkunst (Academia de Arte e Arquitectura), onde preparava a componente audio-visual das aulas. Foi aí que conheceu e começou a trabalhar com arquitectos. Os contactos com Carlos Castanheira, que na altura vivia em Amesterdão vêem dessa altura. É através dele, Castanheira, que José M. Rodrigues conhece Siza Vieira, e é na Holanda, que faz o seu primeiro trabalho fotográfico com Siza Vieira, o “ferro de engomar” em Haia.
José Manuel Rodrigues, Den Haag, 1986/87

Agora o museu da electricidade reúne novamente os três, a exposição monográfica de Siza Vieira é comissariada por Carlos Castanheira e acompanhada das fotografias de José M. Rodrigues.
No texto escrito por Siza que acompanha o trabalho da Igreja de Santa Maria, Marco de Canavezes, 1990-96, lemos o seguinte “...há um segredo para entrar na igreja de Santa Maria; entrar como um vaso poroso de argila entra numa água impoluta e fresca. Entrar e deixar-se embeber pela luz e pela frescura do silêncio”.
Para José M. Rodrigues “...quando estou a fotografar um monumento ou uma pedra, gosto de estar lá preso precisamente como ele(a) e então tento sempre pôr o filme paralelo às linhas daquilo que estou a fotografar”.
Todas as fotografias são da Igreja Santa Maria, em exposição no museu da electricidade

Porém nesta fotografia que não está na exposição, a regra é violada,
José Manuel Rodrigues, Igreja Santa Maria, Marco de Canaveses, 1996/98
e por esta porta entreaberta a luz de Vermeer entra na Igreja de Marco de Canaveses, “um verdadeiro grito de “sursum corda”, ou seja corações ao alto”, como se José M. Rodrigues nos quisesse fazer chegar ao céu como ele o já tentara numa das suas mais emblemáticas fotografias.
José Manuel Rodrigues, Amesterdam, 1984

Mas continuemos com Siza “...sentar-se numa cadeira, de preferência uma das que permite uma visão do Marão longínquo, sem máquina fotográfica, sem ideias, ouvindo apenas a música da àgua do baptistério...”. Não utilizemos então a máquina fotográfica, em contrapartida um brevíssimo extracto do romance “Sempre Noiva” de Luis Carmelo, em que Felício é o próprio José M. Rodrigues: “...Dois relógios entretêm a cadência de toda esta operação, para que Felício nunca se esqueça de regularmente agitar as tinas. Só assim, a prata há-de receber em todos os pontos do papel algum do revelador ainda vivo e fresco. Por trás desta pausada ablução, ouve-se o constante correr de águas, qual fonte a meio de um desejo demorado. E porque qualquer liturgia tem sempre um fim, o papel salta agora para o banho de paragem e, um minuto depois, para o fixador onde a prata é finalmente absorvida. É nesta última tina, após três minutos de ansiedade, que se consumará a alquimia da imagem...”. Luis Carmelo.

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