sexta-feira, junho 22, 2007

Fotografar a globalização

A globalização está na ordem do dia, e qualquer que seja o motivo, económico, político, cultural...suscita múltiplas discussões e opiniões.
Vem a globalização a propósito da Bienal de Veneza. Robert Storr, o primeiro americano a comissariar a Bienal, é criticado pelo país anfitrião, a Itália. Para os críticos, a presença italiana é diminuta, só 10 artistas em Giardini, e seguem-se os lamentos pelos custos ultrapassados, “Storr gastou mais do que podia, mas claro, como os americanos têm o costume de gastar capital privado...é o problema de se convidar comissários estrangeiros, não conhecem a situação do país e depois gastam que nem uns loucos, referem os mais rancorosos, e continuam até o Papa, já faz tempo que não é italiano...”.
Por cá a indignação também é grande, se os italianos se queixam de só ter dez artistas, na escolha de Storr, não há rostos da arte portuguesa, Ângela Ferreira é representante nacional não escolha de Storr. Nos jornais, a crítica é unânime em dizer que a ausência não está na falta de qualidade dos artistas portugueses, mas de uma política eficaz que dê visibilidade aos artistas, e para muitos, Portugal também já não é um país suficientemente exótico para aí estar representado, como a Turquia e África que têm este ano um pavilhão.
Numa entrevista, a um jornal e à pergunta: “não lhe parece contraditório, quando se fala tanto em mundialização, o número de pavilhões nacionais aumentar na Bienal?” Storr responde “esta “cultura nacional” deixa-me perplexo” e continua “ cada vez mais os artistas trabalham num quadro explicitamente internacional, o que não quer dizer que a arte se tenha homogeneizado a nivel mundial,...agora, escolher os artistas em função de uma representação nacional, não é a forma que eu vejo de abordar a questão...”. “Toda a minha exposição de Veneza tem a ver com a questão que coloco no título, “Think with the senses, feel with the mind”.
Se ao nível da arte, a “cultura nacional” ainda deixa perplexa muita gente, ao nível dos mercados financeiros, “cultura nacional” já não existe há muito e a globalização é uma evidência, basta lembrar o célebre caso do hedge-fund LTCM (Long Term Capital Management). Myron Scholes e Robert Merton, que no ano anterior tinham ganho o Nobel da Economia, geriam o fundo americano em gabinetes com rasgadas janelas que davam para um belíssimo parque, para ajudar a reflexão. Com rentabilidades anuais na ordem dos 40%, o fundo tornou-se num dos maiores hedge-fund da América. Como é permitido aos hedge-funds, Scholes e Merton, utilizavam a alavacagem. O capital alavancado variava entre 20 a 40 vezes, e o risco era elevado para os montantes em causa. Aplicações em obrigações de taxa fixa, levaram em 1998, o LTCM a perder mas de metade do seu valor. Alan Greenspan, na altura presidente da Reserva Federal Americana, percebe o risco, tratava-se de um valor que ultrapassava o sistema financeiro americano, e o credor principal eram os bancos de Wall Street. Greenspan pediu ajuda aos bancos estrangeiros para evitar o colapso financeiro, como ele referiu “LTCM could have posed “severe risk” to global financial markets”.
Um ciclo vicioso estava criado, atribuia-se 10% das percas aos bancos russos, por incumprimento do pagamento da sua dívida pública...No ano seguinte, o Deustche Bank comprava o americano Bankers Trust, caso inédito na América, mas o Deustche ajudara a financiar a crise do LTCM, a globalização já há muito enraízada, torna-se como uma bola de neve, cada vez maior...
Quem trabalha nos mercados financeiros, sabe que a globalização não são só benefícios, o risco subjacente é elevado e nunca se sabe bem as consequências. Para os artistas e comissários portugueses o problema da divulgação dos nossos artistas não reside na falta de qualidade para competir, o problema, é que com a globalização, o mundo da arte tornou-se cada vez mais abrangente, e a representatividade geográfica é cada vez mais alargada. Torna-se humanamente impossível a um comissário percorrer e visualizar todos os trabalhos à escala mundial...
Por cá os economistas falam dos benefícios da globalização como factor de pressão no aumento da competitividade. Competitividade significa qualidade, e claro que todos concordamos. Mas os economistas viram as costas para o mar, para o oceano Atlântico que percorre toda a nossa costa, e só têm olhos para a Europa, para eles é lá que devemos competir e ganhar, e apontam algumas experiências de sucesso...quem conhece a realidade sabe a absurda burocracia do nosso país...
Allan Sekula, é um californiano que olha para o mar como centro da economia globalizada, e na década de 1980, começa “Fish Story” um trabalho que o ocupará vários anos, “the topic was the sea as the forgotten space of modernity” afirma Sekula numa recente entrevista. Los Angeles, San Diego, Hong Kong, Gdansk, Roterdão, Vigo, Vera Cruz, foram alguns dos portos que fotografou. Como ele diz “ No one would describe Los Angeles as a maritime city. A port with a present and an optimistic future, but oddly indifferent to its own past”. Na linha dos seus contemporâneos, de Victor Burgin a Jeff Wall, inova a fotografia documental, fotografias, textos e slides, fazem parte do trabalho. Sekula não olha só para o presente, interessa-lhe e investiga o passado da história marítima. O passado é fonte de um vasto arquivo de representações, desde as marinhas de J.M:W. Turner, no século XVII, ao filme “Battleship Potemkin” de Sergei Eisenstein. Mas acompanha o presente a bordo de um navio de mercadorias, de New Jersey a Roterdão, onde atravessa o Atlântico. A invenção dos contentores, na década de 1950, e o transporte em navios foi o que para Sekula “that makes the global system of manufacture possible”. Para ele, a internacionalização das mercadorias que contribuiram por sua vez para a homogenização e globalização dos hábitos de consumo, fez-se através do mar e é nas cidades portuárias, que a economia globalizada é mais visível.
Allan Sekula, Fish Story
Allan Sekula, Fish Story

Se o projecto “Fish Story” terminou em 1995, em 99 será “Freeway to China”.
Allan Sekula, Freeway to China, 1999

“The Teal berthed at Pier 300 after unloading two of four German cranes transported across the Indian and Pacific Oceans from construction site in Abu Dhabi on the Persian Gulf, where they were manufactured by Filipino and other South Asian migrant laborers. Belgian-owned, the Teal is registered in the Netherlands Antilles, a pervasive legal ruse that permits the hiring of cheaper foreign crews.” Freeway to China 4, Allan Sekula.

E em 2001 será Tsukiji, e “then the movie began...views of famous scenic spots like the imperial palace...flickered past.”
Allan Sekula, vídeo, 2001

Agora é o mercado de peixe em Tóquio.
Allan Sekula, retirado do livro, Performance under working conditions
Em 2004 a Galeria Filomena Soares mostra o trabalho “Fórmula secreta: A riqueza sem Mão-de Obra” de 2001.
No texto que anuncia a exposição lemos o seguinte: “Desempenhando actividade como fotógrafo, teórico, historiador de fotografia e escritor, o trabalho de Allan Sekula incide sobre as consequências das mudanças económicas resultantes da globalização, questionando ainda a função da fotografia documental dos “media”, na arte e na sociedade. Nos trabalhos (fotografias a cores associadas a texto), o artista dedica-se à temática da economia, com o objectivo de oferecer uma alternativa à cultura fotográfica habitualmente veiculada pelos museus e galerias.”

No dia 13 de Novembro de 2002 é a catástrofe no mar da Galiza, o petroleiro Prestige afundava a poucos metros da costa. Pela proximidade ainda nos lembramos do Prestige. Sekula regressa ao porto de Vigo para fotografar a tragédia.
Allan Sekula, Maré Negra, 2002/03
Allan Sekula, Maré Negra, 2002/03
Allan Sekula, Maré Negra, 2002/03
Allan Sekula, Maré Negra, 2002/03

Nesse ano comprei este livro em Vigo, editado pela junta de jornalistas da Galiza:
Xurxo Lobato, Afundimento do Prestige, Nov 2002
Torrecilla, Muxia (A Coruna) 05/12/02
Pepe Tejero, Pontevedra, Nov 2002
Antón García, Pontevedra, 07/12/02

Xan Xiadas, Ria de Pontevedra, Dec.2002

Olhando para as fotografias de Sekula e dos vários jornalistas, não notamos diferenças. O problema é comum, denunciar a falta de segurança marítima. As fotografias de Sekula circulam pelo mundo, as dos jornalistas ficaram pela Galiza.

Por fim, na Documenta 12, que abriu no passado dia 16 de Junho em Kassel, é a vez de “Shipwreck and Workers” trabalho de 2005/07.
Allan Sekula, Shipwreck and workers, detalhe de um tríptico, 2005/07
Allan Sekula, Shipwreck and workers, 2005/07

Sekula continua a olhar para o mar, ao contrário de nós portugueses que lhe viramos as costas.

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terça-feira, junho 19, 2007

Os retratos de Henri Cartier-Bresson

Em Agosto de 2004, a poucos dias de completar 96 anos, falecia Henri Cartier-Bresson.
Um ano antes, ainda imparável, trabalhava com Robert Delpire na grande retrospectiva “De qui s’agit-il?”organizada pela Biblioteca Nacional de Paris. Juntamente com a mulher, Martine Frank, abria as portas da sua Fundação e ainda tinha tempo para entrevistas.
Do património que legou à Fundação Henri Cartier-Bresson, pode-se ver agora na Fundação Eugénio de Almeida em Évora, uma selecção dos seus retratos.
Na década de 1970 deixou a fotografia para se dedicar ao desenho, mas continuou a retratar família e amigos.
Henri Cartier-Bresson, Martine Frank, Paris 1975
Um ano antes de morrer, numa entrevista à revista Aperture, recorda-se do que Giacometti dizia em relação aos seus retratos, “faire des têtes”.
Henri Cartier-Bresson, Alberto Giacometti, Suiça, 1961

Quase que se pode afirmar que Cartier-Bresson fotografou o mundo, da Índia ao Canadá, passando pela Europa, Portugal não ficou de fora. Numa tarde de Verão, não foi a praia do Tamariz que lhe interessou registar, foram as relações humanas dos veraneantes, desde o banheiro à quase estrela de “Hollywood” todos gostam de conversar.
Henri Cartier-Bresson, Praia do Tamariz, Estoril, 1955

Detestava falar do passado, mas no final da vida, na entrevista à Aperture reconhece a sua dádiva à América, “vivi no Harlem, na 23ª rua. A vitalidade de Nova Iorque contagiou-me. Graças aos americanos tornei-me num fotógrafo conhecido. Monroe Wheeler, Lincoln Kirstein, Nancy e Beaumont Newhall e o Museu de Arte Moderna, o MoMA, organizou a minha primeira retrospectiva em 1947.”

Se o próprio reconhece que foi a América, em 1947, que o tornou um fotógrafo conhecido, um certo mistério ainda paira sobre as fotografias que nesse ano tirou no seu “on the road” americano.
Passou-se o inverso com Robert Frank, é o seu livro “The Americans” que o tornará num dos fotógrafos mais conhecidos. É curioso, dois estrangeiros, que se fazem à estrada americana para a fotografar. Frank, com uma bolsa Guggenheim na companhia da mulher e filhos, 1955/56, Cartier-Bresson, com uma encomenda incerta de uma editora, e uma comissão certa da Harper’s Bazaar, para retratar pelo caminho personalidades, leva como companhia o poeta e escritor John Malcolm Brinnin. E em meados de Abril, com Brinnin ao volante, partem nesse périplo americano percorrendo 20.000 Km. Milhares são as provas de contacto dessa viagem que durou vários meses. “Quando ficou decidido, (1990), que publicaríamos as fotografias americanas do Henri, compreendi que teria de passar uma boa parte do Inverno debruçado sobre as suas provas de contacto”, escreve Gilles Mora no prefácio do livro finalmente editado em 1991, (as provas de contacto não são só da viagem de 47 mas incluem também a década de 60).
A vontade de registar a América na companhia de um escritor, vinha-lhe de uma encomenda de Carmel Snow da Harper’s Bazzar, que em 1946 o mandara fotografar Nova Orleães na companhia de Truman Capote.
Henri Cartier-Bresson, Truman Capote, Nova Orleães,EUA, 1947
O artigo seria um texto de Capote ilustrado por Cartier. A Harper’s era mais que uma revista de moda. “Soube mais tarde”, escreve Gilles Mora no prefácio do livro, “que o Henri, esse europeu itinerante e bisbilhoteiro, o tinha obrigado a caminhar por entre a verdura das velhas árvores, sob um calor intenso, arrastando-o sob a folhagem até que, de tão estafado, ofereceu à Leica o seu rosto de eterno adolescente, quase engolido pela fresca obscuridade de uma glicínia.” Podemos ver na exposição, o adolescente Capote quase engolido pela obscuridade desta vegetação que não me parece ser uma glicínia.
Para Cartier-Bresson, fazer um livro em duo, em que fotografia e texto teriam igual relevo, à semelhança do “Let’s now praise famous men” de Evans e Agee, torna-se o seu sonho. Brinnin já é admirado pela crítica, e gosta de viajar. A decisão está tomada, ao fim de seis meses, sem ainda se conhecerem bem, Cartier-Bresson e Brinnin partem pela América profunda, em que para Cartier “mes photos son mon jornal”, apontamentos e notas serão o outro jornal, o de Brinnin.
Se em 1991, a América de Bresson era revelada em livro, dez anos antes, 1981, Brinnin escreve e publica “On the road with Cartier-Bresson”.
Revista que em Janeiro/Fevereiro de 1982 publica o texto
São as notas de vigem misturadas com memórias posteriores: “Texas went on forever and we saw only one another. Stepping up our working day from fifteen to eighteen hours, we stopped in flaming sunsets to eat from trays that girls in sateen skirts and knee-high boots clamped to the doors of the car, then fell, exhausted, onto beds in rooms that had long ago become the same room – on its walls the same clown faces, the same Van Gogh sunflower, the same sad Indian at the end of the trail”. Estes quartos de motel indiferenciados que Brennin nos descreve conhecemo-los de Frank. Cartier “tinha voluntariamente renunciado à paisagem americana em favor do aspecto humano, de acordo com os seus gostos e com a sua cultura. Porque, por uma postura inversa, tinha que decidir, de uma vez por todas, tornar a América europeia, e construí-la fotográficamente em torno das pessoas, dos seus gestos, do significado desses gestos.”, escreve Gilles Mora no prefácio. Como este casal em Los Angeles que podia ser europeu.
Henri Cartier-Bresson, Los Angels, EUA 1946
Das milhares de fotografias que tirou em Los Angeles, diz-nos Brennin, esta é a única, que eu saiba, que Cartier-Bresson utilizou. Gilles Mora, também a seleccina no livro “ A América”. Em Évora podemos agora ver o casal de namorados, que três anos mais tarde, já casados, processou Cartier-Bresson.

Mas fotografar “creative people in the settings where they lived and worked” tinha sido acordado com a Harper’s Bazaar.
Esta fotografia de William Faulkner resultou desta maneira:
Henri Cartier-Bresson, William Faulkner, Em sua casa, Oxford Mississipi, 1947

“We had accepted a commission by Harper’s Bazaar to do a story,...one of these was William Faulkner. In the morning we spent with him , he showed us through his house and told us its history, posed for pictures in its jungle-shiny garden, and unaware that “poses” were anathema to Cartier, lingered just long enough to allow himself to caught unposed. This accomplished, I could tell by Henri’s dangling Leica (our private signal in “polite” situations) that he was as ready to move on, (…) As we rambled along the edges of a giant magnolia tree, I was about to say our time was up when, lifting his camera, Henri signaled me to continue conversation, while he maneuvered for a shot of Faulkner against the white portico of the house…”

No dia 6.15.47, chegam a Taliesin East, é a vez de fotografar Frank Lloyd Wright. Podemos ver na exposição, Frédérice e Iréne Joliot-Curie, sobre a qual e julgando que Cartier não sabia inglês, Wright diz : “I’ve been through this man’s picture book, all those sad and miserable people. Does he Know what a lugubrious gallery he’s made? Take that one of Marie Curie (sic) and her husband. They could be attending their funeral.”
Henri Cartier-Bresson, Irène e Frédéric Joliot-Curie, Em sua casa, Paris, 1944

Sobre esta mesma fotografia Cartier-Bresson gostava de contar como a fizera: “Toquei à campainha, a porta abriu-se, vi-os, disparei, depois disse bom dia, não fui muito bem educado”.

Chegam a Nova Iorque, Cartier seleciona as fotografias, Brinnin escreve os textos, a editora Pantheon não o publica. Ficará em Brinnin sempre um azedume, Cartier “utilizou-me para o guiar na América profunda, na verdade ele nunca quis fazer um livro a meias.”

Se hoje as fotografias do “on the road” suscitam algum mistério, misterioso é mesmo este auto-retrato, um dos primeiros que tirou, que não está na exposição, e que nos faz duvidar se o auto- retratado é mesmo Henri Cartier-Bresson.
Henri Cartier-Bresson, Auto retrato, França, 1932

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sábado, junho 16, 2007

D. Carlos e o regicídio

Rui Ramos, historiador e investigador, é o autor de D. Carlos, livro recentemente editado pelo Círculo de Leitores.
“Em 1906, D. Carlos apostou em João Franco, um político que já tinha sido seu ministro várias vezes, para reequilibrar o sistema político e financeiro da monarquia constitucional. Imaginou certamente que podia inaugurar uma era de estabilidade e prosperidade, em que fosse possível proceder à transformação tranquila do país, segundo os padrões do liberalismo, (...). Em 1907, quando a restante elite política o tentou obrigar a demitir Franco, resistiu. Era o que se esperava da sua reputação de coragem”.
Joshua Benoliel, O presidente do conselho João Franco a chegar a Coimbra, na histórica jornado do Porto, Junho de 1907

“Mas o rei não contou certamente que os seus inimigos fossem tão longe, como acabaram por ir na tarde de 1 de Fevereiro de 1908, quando na companhia da rainha e dos príncipes, começou a travaessia do Terreiro do Paço numa carruagem aberta, e sem escolta.(...) o caminho da reforma acabou por ser afinal o caminho da perdição”, (...) e seria a maneira da sua morte, mais do que a sua vida, que o tornou memorável”.
Como historiador e investigador, Ramos pretende repor a verdadeira história desse reinado e ressaltar a importância da monarquia constitucional de D. Carlos, como ele refere “nada como uma tragédia para afunilar a memória e a história”. “Neste livro, não vou tentar fazer uma aproximação intimista ao indivíduo, mas uma análise política do rei, (...) analisar as suas decisões em contexto. A interpretação de D.Carlos apresentada neste livro assenta numa reflexão sobre a cultura política do liberalismo português...”.
Não há registo fotográfico do momento quando o landau, a carruagem aberta onde seguia a família real, foi alvo do tiroteio. Joshua Benoliel, (1873-1932) o repórter fotográfico, registou o antes, a espera de D. Manuel, que regressara mais cedo a Lisboa e aguardava no cais fluvial do Terreiro do Paço os seus pais que chegavam no barco a vapor vindo do Barreiro.
Joshua Benoliel, infante D. Manuel aguarda no cais, 1 Fevereiro 1908
Illustração Portugueza, 10 Fevereiro, 1908, A cem metros do Thrôno, A cem passos da morte.
O que se passou naquela tarde, foi objecto de variadíssimos relatos na imprensa da época e memórias posteriores, mas não há dois exactamente iguais, revela Rui Ramos. Nem mesmo os depoimentos da rainha e do infante coincidem. Na plataforma central, junto à estátua de D.José um “homem de barba preta” disparou um tiro de carabina, logo outro homem, saindo das arcadas do Ministério da Fazenda, correu para a carruagem e dependorando-se no estribo, disparou também sobre o rei.
Ambos foram abatidos no local pela polícia, e fácil foi a sua identificação. O “homem da barba preta” chamava-se Manuel dos Reis da Silva Buíça,
Joshua Benoliel, Manuel Buíça, Fevereiro 1908
Illustração Portugueza, O attentado, 10 Fevereiro, 1908
L'Illustration, 8 Février, 1908,( capa).
o do estribo chamava-se Alfredo Luis da Costa. Mas o apuramento da responsabilidade pelo regicídio “é um terreno minado por falsas pistas, fantasias e lendas, em que ninguém resistiu à tentação de inventar...”, escreve Rui Ramos. A imprensa com o que ouvira desenhou o atentado,
Alberto Souza, Fevereiro 1908
Simon, Fevereiro, 1908
outros jornais fizeram fotomontagens, de desenhos e fotografias do Terreiro do Paço.
Reconstituição fotográfica do Regicídio, autor desconhecido, ABC, 3 Febrero 1908
O jornal L’Illustration destacou o acontecimento, não esqueçamos que D. Amélia era a filha mais velha do Conde de Paris .
L'Illustration, 8 Février, 1908, Fotografias de Joshua Benoliel

“Mas nem o governo nem os seus orgãos na imprensa acusaram ninguém – a não ser, vagamente, “exaltados anarquistas”, como o fez num primeiro momento o redactor do Jornal da Noite, ainda sem saber pormenores do caso”. Dias mais tarde a Illustração Portuguesa, revista do jornal O Século, mostrava as seguintes imagens: Orfandade, os filhos de Manuel Buíça, e o Exílio de João Franco.
Illustração Portugueza, 17 Fevereiro, 1908, Fotografias de Joshua Benoliel
Joshua Benoliel, Fevereiro, 1908

“Depois de embalsamados os corpos, descobriu-se que a urna encomendada para o rei era demasiado pequena. Houve que esperar que se fizessem outra”. R. Ramos.
Joshua Benoliel, Fevereiro, 1908, Construção da urna de D. Carlos

“Os tiros de que ficaram marcas na carruagem indicam que o príncipe real e o infante foram alvejados repetidamente”. R.Ramos
Joshua Benoliel, O landau do regicídio, vêem-se os furos das balas, Fevereiro, 1908

À medida que a notícia se espalhou, a cidade esvaziou-se. Luis Teixeira de Sampaio, da Direcção política do Ministério dos Negócios Estrangeiros, no lado oriental da praça seguiu tudo de longe. Chegou a casa ao mesmo tempo da irmã “que lhe contou que tinha estado na Baixa, às compras, até um conhecido lhe ter recomendado que voltasse imediatamente para casa”.R.Ramos

Joshua Benoliel foi o fotógrafo desse tempo, fotografou a viragem do século, desde a Monarquia Constitucional à República e as suas fotografias, largamente reproduzidas na Illustração Portuguesa,
asseguram um lugar pioneiro na prática e desenvolvimento do fotojornalismo. Para além dos acontecimentos políticos, Benoliel foi também um curioso documentarista de costumes e personagens urbanos.

Benoliel não estava lá nessa tarde do dia 1 de Fevereiro de 1908, a fotografar as senhoras às compras na Baixa Lisboeta, mas deixou-nos informação suficiente para reconstituir-mos hoje a sociedade dessa época.
Illustração Portugueza, 1912, fotografias de Joshua Benoliel

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quinta-feira, junho 14, 2007

"Mujer, etcétera"

“Mujer, etcétera. Moda y mujer en las colecciones” é mais um livro editado pela Foto Colectania que acompanha a exposição com o mesmo nome, click aqui para obter informações da exposição. Não vi a exposição e não é provável que a veja, mas a Foto Colectania desde que abriu as suas portas no nº 6 da Julián Romea em Barcelona, já nos habituou aos excelentes livros que acompanham as exposições que organiza, e “Mujer, etcétera” é mais um.

A exposição não retrata só a mulher enquanto ”montra da moda”, alguns retratos estão fora desse contexto, como a fotografia de Varvara Stepanova, tirada pelo marido, Alexander Rodchenko e esta fotografia de Martin Munkacsi que foi primeira página de uma revista berlinense.
Martin Munkacsi, Sonnenbaden, 1929, 50 x 39,8 cm, retirada do livro "Mujer etcétera"

Em “Mujer, etcétera” podemos ver várias fotografias de Munkacsi e é ele que me leva a Carmel Snow, uma mulher que na sua época foi visionária do mundo da moda. “Mujer etcétera” trata como refere o sub título do livro e exposição, da moda e da mulher, e seria difícil encontrar melhor oportunidade para escrever sobre Snow, a irlandesa de Dublin que emigrou para Nova Iorque e se apaixonou pela moda.

Walter Sanders, Brodovitch no chão e Carmel Snow na secretária, na Harper's Bazaar, 1952

Quando escrevi sobre Alexey Brodovitch, pensei contar a história como Snow o contratara em 1934 para a famosa Harper’s Bazaar, mas por vezes a escrita atropela o que pensámos e Snow e o contracto ficaram de fora. Hoje não vou deixar de fora e vou contar como Snow contrata, não Brodovitch, mas o fotógrafo Munkacsi para trabalhar na Harper’s Bazaar.

Convidada em 1933 pelo próprio William Randolph Hearst, para editora da revista Harper’s Bazaar, Snow deixa a rival Vogue, de Condé Nast’s onde trabalhara anos com
o turco Mehemed Fehmy Agha e que com ele aprendera “to look for life”. Ainda na Vogue Edward Steichen, na altura director de fotografia da revista, lembra-se da atitude inovadora de Snow “the photographer should have whatever he required, and no questions asked”. A moda estava a mudar e Snow aceita o desafio, sabe o que quer e é a oportunidade “to get some fresh air in the book”, como recordará mais tarde na sua autobiografia. “Fresh” e “inventive” eram as fotografias de Munkacsi, um húngaro cujas fotografias vira em “Die Dame” a revista alemã equivalente à Vogue. Munkacsi iniciara a sua carreira como fotógrafo de um periódico de Budapeste,"Az Est". Mas em 1927 deixa Budapeste por Berlim onde trabalha para o grupo Ullstein.

Martin Munkacsi, Berliner Illustrirte Zeitung, Pesti Napló, 1927

“I remember my joy at thinking, this man is here!”, o homem é Munkacsi, e por sorte estaria em breve em Nova Iorque, em trabalho para o grupo alemão. Munkacsi, ainda segundo as memórias de Snow, “who had never taken a fashion picture in his life”, mal pisa Nova Iorque é contratado por ela para fotografar uma sessão de fatos de banho para a revista. Mas nada melhor do que ler o que Snow escreveu ao recordar-se desse famoso dia: “The day I took those two Hungarians to the Piping Rock Beach is a day I will never forget. The model was Lucile Brokaw, the first of the ‘society’ models that I found. The day was cold, unpleasant, dull – not at all auspicious for a ‘glamourous resort’ picture. Munkacsi hadn’t a word of English, and his friend seemed to take forever to interpret for us. Munkacsi began making wild gestures. ‘What does Munkacsi want us to do?…’ It seemed that what Munkacsi wanted was for the model to run toward him. Such a ‘pose’ had never been attempted before for fashion (even ‘sailing’ features were posed in a studio on a fake boat), but Lucile was certainly game and so was I. The resulting picture of a typical American girl in action with her cape billowing out behind her, made photographic history…Munkacsi’s was the first action photograph made for fashion, and, it started the trend that is climaxed in the work of Avedon today”.

Depois da sessão fotográfica,
Martin Munkacsi, first fashion photograph (of model Lucile Brokaw), Harper's Bazaar, December 1933

Hearst chama Snow a San Simeon, hoje visita turística de referência na Califórnia,
para discutirem o trabalho de Munkacsi. Este não só é contratado como convidado de Hearst em San Simeon. Mas as boas graças com Hearst serão breves. Num dos fins-de-semana, em San Simeon, Munkacsi pede autorização para fotografar Marion Davies, a dona da casa.

Marion Davies, é fotografada num dos terraços da casa com um fato de organza franzido, parecendo uma bonequinha que se coloca no topo de um bolo de noiva.
Martin Munkacsi, Marion Davies, San Simeon, Califórnia February 1934

Hearst não gostou, Munkacsi não passava de “just a snapshot photographer” e demite-o. Snow resiste a Hearst mas Munkacsi regressa a Berlim. Mas Snow não desiste, percebera o novo espírito “lifestyle” do seu tempo, a moda nos anos 30 estava a mudar e representava as novas maneiras de viver, e as fotografias de Munkacsi eram indispensáveis para o sucesso da revista. Por outro lado, Berlim, cidade outrora irresistível, onde energia e liberdade transbordavam, tornava-se com o fim da República de Weimar numa cidade enclausurada. Antes de partir para a américa “Having fun at Breakfast” é uma ironia de Munkacsi,
Martin Munkacsi, "Having Fun Breakfast", Berlim, c.1933

um homem enclausurado num quarto, só lhe resta subir às paredes. Seis meses depois, com um contracto exclusivo, Munkacsi está a trabalhar para a Harper’s Bazaar. É esta mulher decidida, que tornará a Harper’s Bazaar numa das revistas de moda mais sofisticadas do seu tempo, onde a dupla, Brodovitch no design e Munkacsi na fotografia, se completam na perfeição.

Todas as fotografias são da Harper's Bazaar, design de Alexey Brodovitch, e fotografias de Munkacsi.

Se Munkacsi resistiu ao poder de Hearst, não resistirá ao poder da fotografia a cor. Depois da guerra a cor invade as revistas, mas Munkacsi não consegue fazer a transição do preto e branco para a cor, e em 1947, embora continue a trabalhar na moda a revista não lhe renova o contracto.

No texto “efémera eternidade”, Lola Garrido referindo-se a esta maravilhosa década, 1930, escreve “ A moda e o cinema andaram sempre de mãos dadas, e nesta época dourada de Hollywood os fotógrafos retratavam as estrelas para as mesmas páginas”.
Ilustremos então esta época dourada de Hollywood com uma última fotografia de Munkacsi: Carmel Snow, não de mão dada com Charlie Chaplin mas sentada ao seu lado.
Martin Munkacsi, Charlie Chaplin (centro), Carmel Snow (esquerda), San Simeon, Califórnia, November 1933


Nota: o livro "Mujer etcétera" encontra-se à venda nas lojas Fnac, Bucholz, Climepsi, Corte Inglês, Barata, Almedina...
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