sexta-feira, março 02, 2007

Parabéns, Daniel Blaufuks

E das Vanguardas Russas, vamos até São Petersburgo com Daniel Blaufuks (n.1963).
Livro "Uma viagem a São Petersburgo"

“Chegámos pela tarde a São Petersburgo e tudo era como vem nos livros. O aeroporto triste, as avenidas largas. Os blocos de cimento, os monumentos de uma revolução passada os olhos claros das russas que passavam, o corredor interminável do hotel com tantos quartos e tão poucas pessoas. A bandeira soviética servia para proteger a mala do táxi, agora que já não tem outra utilidade. São Petersburgo parece ser uma cidade infinita, mas simultaneamente há muito pouco trânsito e os prédios parecem vazios” é assim que Blaufuks nos introduz no seu diário pessoal “Uma viagem a São Petersburgo”, editado em livro pelos Encontros de Coimbra em 1998. Através das polaróides e do texto manuscrito entramos num tempo em que as memórias andam à solta.
Livro "Uma Viagem a São Petersburgo"

"Na Rússia as toalhas são do tamanho de guardanapos e os guardanapos do tamanho de um bloco de notas."


"Quando se ouve música em São Petersburgo é música de um compositor russo, quando se fala em literatura é de um escritor russo que se trata, quando se pensa em cinema, pensa-se em Tarkowsky ou Eisenstein, quando se vai a um museu vê-se Malevich, Kandisky ou Rodchenko. Apesar de todas as censuras czaristas, bolcheviques e comunistas, a cultura russa é fortíssima e talvez ainda o venha agora a ser mais do que nunca."


Memórias individuais e colectivas revelam-se, o tempo é um outro, em que comiamos o chocolate destes cigarros.


E as memórias levam-nos a tempos recuados.

Em 1989, fazia a fotografia 150 anos, António Sena, para celebrar o anúncio oficial da fotografia ao mundo preparou uma exposição itinerante, a que chamou Nível de Olho. A exposição era uma mostra de fotografia em Portugal nos anos 80. Em relação a Blaufuks, Sena escreve o seguinte: “Daniel Blaufuks é um jovem fotógrafo que caminha entre o foto-jornalismo intimista – visões pessoais de amigos e ambientes – e a fotografia de moda, num percurso de progressiva sedução. Na continuação de Paulo Nozolino, de quem herda um fascínio especial pelo aproveitamento dos negros densos e brancos puros, delicia-se nos jogos de olhares. São imagens narcísicas por via de uma procura intencional e prioritária de um estilo como objecto de tratamento fotográfico: com o seu tema”.

Catálogo da exposição "Nível de Olho", 1989 Fotografias de Blaufuks

Catálogo da exposição "Nível de Olho", 1989, Fotografias de Blaufuks

As fotografias expostas eram 6 dípticos, em clorobrometo e clorobrometo c/ viragem azul de 34,5 x 29, 1987/88.
O clorobrometo com viragem a azul destoava do conjunto da exposição, toda ela a preto e branco com excepção para a côr sépia de João António Motta.

Catálogo da exposição 10 Encontros de Fotografia, Coimbra,1989

Os negros densos de Blaufuks, trabalho apresentado nos 10 encontros da fotografia em 1989.

A selecção dos fotógrafos escreve ainda Sena no catálogo Nível de Olho: “É uma “escolha transitiva” no sentido em que se escolheram, não os autores consagrados – Gérard Castello Lopes, Jorge Molder, Paulo Nozolino e José Rodrigues – mas os autores cujos projectos poderão tornar-se confirmações de universos particulares na década que se segue.”

Os projectos de Blaufuks confirmaram-se pela sua obra heterógena que desde 1987 tem vindo a fazer. Em 1989 ganhou o prémio Kodak, há quatro dias ganhou o prémio Bes Photo. Blaufuks está de parabêns, a força visual das suas imagens seduzem-me e obrigam-me a olha-las com atenção.

E termino, com uma imagem do vídeo, Sob Céus Estranhos, de 2002, que tive a sorte de gravar, quando foi exibido na televisão, e que não me canço de ver.

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quinta-feira, março 01, 2007

As Vanguardas Russas

Ao longo destes meses, os assuntos sobre os quais tenho escrito têm sempre um estímulo exterior, sejam exposições, conferências, livros recentemente editados, notícias nos jornais... e é a partir desses estímulos que surgem os posts. Freud revelou que também os nossos sonhos se alimentam de estímulos exteriores, e cada um de nós o pode confirmar. Quando nos conseguimos lembrar, as histórias dos sonhos partem frequentemente de estímulos recentes.

Em Novembro passado, tive a oportunidade de ver uma excelente exposição”Une Arme Visuelle: le photomontage sovietique 1917-1953”.
Contudo, por falta de tempo, a exposição passou, e não cheguei a aproveitar o tal estímulo exterior para escrever sobre esse excepcional periodo da história da fotografia. Na passada terça-feira, Delfim Sardo, na Culturgest, num ciclo sobre os géneros artísticos contemporâneos, "Um fotograma é uma fotografia?", foi o tema que Sardo escolheu para encerrar o ciclo.
Podemos ler no site da Culturgest o que Sardo escreve a propósito desta última sessão dedicada à fotografia:“ A fotografia e a imagem projectada ocupam um sector muito importante da produção artística contemporânea, mas são também responsáveis por um retorno de vinculação ao real. Entre o documento e o monumento, quais os caminhos da imagem?”

Documento e monumento inevitávelmente levaram Sardo a centrar-se nas vanguardas soviéticas. A monumentalidade da fotomontagem e das exposições com fotografias em grande escala, iniciaram-se com as vanguardas russas, diz-nos Sardo. El Lissitzky combina fotografia com arquitectura na concepção e design de exposições, Alexander Rodchenko com as suas fotomontagens e Dziga Vertov, o cineasta, acabaram por ser as figuras centrais da conferência. Os três são amigos. Lissitzky, ilustra em 1929, o livro Fotoglaz ( Olho da fotografia) de Vertov que nunca chegou a sair,
El Lissitzky, montagem
Rodchenko em 1924, desenhou o cartaz para a série Kinoglaz (Olho do Cinema) de Vertov.
Só em 1928, Vertov deu a versão do Kinoglaz em O Homem com a máquina de Filmar, que Sardo nos projectou uma parte. Fotografia, fotomontagem e filme serão a arte da nova Rússia. E tal como Sardo, começemos por apresentar El Lissitzky, com Construtor, o seu auto-retrato de 1924. Recorrendo à montagem, Lissitzky criou um dos seus mais famosos trabalhos ao qual se referiu como o seu “mais colossal absurdo”. A imagem é uma amálgama de referências que não só se referem à sua própria vida, mas que vão mais além, fazendo alusão ao estatuto do artista moderno contemporâneo.
Constructor, El Lissitzky, 1924
A sua imagem é inserida num contexto de objectos que completam a sua identidade. A sua figura emerge de um fundo de papel milimétrico, utilizado por arquitectos e engenheiros. O compasso que sai do seu olho, segurado pela sua mão, simboliza o estatuto do artista como arquitecto, cuja criação racional da forma resulta numa organização do espaço. Utilizado frequentemente em outras obras suas, o compasso representa a consciência criativa de Lissitzky. As letras XYZ desenhadas com escantilhão, são o timbre do seu papel de carta. Construtor, é símbolo da combinação da criatividade do intelecto humano com a tecnologia moderna. Largamente reproduzido em revistas e livros, tornou-se num ícone de arte dos anos vinte.

E Sardo refere-se então à célebre Vkhutemas em Moscovo (Oficinas Superiores Estatais das Artes e das Técnicas), onde no início da década de 1920, Lissitzky e Rodchenko são as figuras de proa que aí leccionam. Pela atmosfera interdisciplinar o instituto é comparável à Bauhaus alemã.
É mais fácil exemplificar mostrando fotografias :
Ascona, Moholy-Nagy,1926
Edição da manhã,Alexander Rodchenko,1928
Dessau, Bauhaus,Moholy-Nagy,1926-28
Traseiras da VChUTEMAS,Alexander Rodchenko,1928
Moholy-Nagy,1926
Alexander Rodchenko, Girl with Leica, 1934

Ao contrário de Man Ray, os fotogramas de Moholy e Lissitzky exploram a materialidade e a imaterialidade da opacidade e da transparência.
Untitled, 1930,Moholy-Nagy, Fotograma
Untitled, 1927 ,El Lissitzky, Fotograma
O clima de criação que se vivia em ambas as escolas estão em perfeito acordo.

A semelhança entre Rodchenko e Moholy-Nagy tornou-se explícita, quando em 1928 as fotografias de Rodchenko foram reproduzidas na Sovetskoe foto (Fotografia Soviética), ao lado de Moholy e Renger- Patzsch e acusava Rodchenko de plágio. Lendo documentos da época o problema do plágio era na época fruto de muitas discórdias, o que não deixa de ser um paradoxo num país que se queria comunitário. Aleksei Gan, edita em 1926, um semanário Kino-Fot, (Cinema e Fotografia). No 2º número de Kino-Fot, Stepanova, mulher de Rodchenko, defende-o do plágio de que tinha sido alvo. As fotografias são acompanhadas pelo artigo de Ossip Brik “O que o olho não vê”
Nº2 de Kino-Fot, fotografias de Rodchenko

Ambos, Rodchenko e Lissitzky tinham viajado por Berlim e Paris e ambos abandonam a pintura, os objectos criados para contemplação estética são banidos e progressivamente ocupam-se da fotografia. “A pintura desaparece com o velho mundo onde tinha uma existência própria. O novo mundo não terá necessidade de pequenas pinturas. Se precisar de um espelho, encontra-lo-à na fotografia e no cinema” escreverá Lissitzky. Para ambos a pintura era um luxo e estava a ser aniquilada pela folha impressa, muito mais utilitária na sua função de informar a transformação social que se operava no país. Com a inauguração do plano quinquenal de Estaline, em 1928, Rodchenko e Lissitzky conjugam arte e política e as suas aptidões criativas são postas ao serviço de propaganda do novo Estado Soviético. A fotomontagem, elaborada a partir de fotografias e considerada como representação da realidade, seria a resposta às necessidades da época. A revista URSS em construção, criada em 1930, destinada a uma distribuição em massa, divulgava os avanços do plano quinquenal. O povo era sorridente e vivia feliz com as obras em curso.
URSS em Construção, 1933,fotografias de Rodchenko na construção do canal no mar Báltico
URSS em Construção, 1940, design El Lissitzky

Por outro lado o novo Estado Soviético, promovia-se não só internamente como internacionalmente através de ambiciosos planos de grandes exposições. O pavilhão soviético na “Pressa”, exibida em 1928 em Colónia, teve como designer principal Lissitzky.
Catálogo desdobrável da exposição Pressa, design de Lissitzky
Montagem da exposição Pressa em Colónia, fotografo anónimo
Embora hoje o projecto seja associado só ao nome de Lissitzky, um grupo de fotógrafos como, Sergei Senkin, Gustave Klutsis...tiveram muito envolvidos.
Serguei Senkine, Fábrica,1931
Gustave Klucis, La Spartakiade d' URSS, 1928
O projecto foi um sucesso. Com “Pressa”, Margarita Tupitsyn uma especialista em história de arte russa, refere que a segunda vanguarda soviética surge com o aparecimento de um novo instrumento, o filme. Filme, fotografia e fotomontagem seriam os suportes das vanguardas soviéticas. Com base numa observação de Ossip Brik “a base da cinematografia era a fotografia”, Lissitzky, em “Pressa” apresenta um design de simbiose entre filme e fotografia. Igualmente na célebre exposição FiFo (Filme e Fotografia) realizada em Stuttgart em 1929, a mostra soviética foi a única que conseguiu estabelecer uma estreita relação entre cinema e fotografia. Em estruturas abertas, como vemos na imagem,
Exposição FiFo, Stuttgart, 1929, pavilhão russo
estavam montadas de forma solta fotogramas de filmes de Vertov e de Eisenstein. Malevitch referir-se-à nestes termos aos filmes de Vertov “mostram o objecto enquanto tal e forçam a sociedade a ver os objectos sem qualquer maquilhagem, reais, autênticos e independentes do mundo idealizado...Esses objectos apresentam uma imagem muito mais poderosa e interessante que todas as faces em pinturas e os seus conteúdos.”
O impacto da monumentalidade das fotografias nestas exposições influenciaram a Itália de Mussolini, a Alemanha de Hitler e nos Estados Unidos, no MoMA, quando o país entrou na 2ª guerra mundial, referiu-nos Sardo, ilustrando algumas delas como esta que aqui reproduzimos.
Átrio de entrada de exposição Die Kamera, Berlim, 1933

E da monumentalidade das vanguardas russas, Sardo, passa para o conceito de “Monuments” de Robert Smithson. Régis Durand, diz-nos Sardo, no seu livro Le Temps de l’image, faz uma análise do que são os “novos monumentos” do nosso tempo. Para Smithson a fotografia transforma o mundo em museu, em cartografia, ela, a fotografia, transforma o site em non-site, e nós não lhe conseguimos escapar. Sardo projecta então a
fotografia de Smithson, que regista com uma Instamatic 400 quando faz uma viagem a Passaic subúrbio de New Jersey, onde nasceu.

“A Guide to the monuments of Passaic” ficará á espera de um novo estímulo.

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quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Jeff Wall no MoMA


Está em exibição no MoMa, Museum of Modern Art de Nova Iorque, uma retrospectiva de Jeff Wall. No site pode ver a exposição assim como as críticas dos jornais. Consulte aqui.

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segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Fundação Foto Colectania

A Fundação Foto Colectania, em Barcelona, foi criada com o propósito, como nos diz o seu director, Pepe Font de Mora, de incitar e divulgar as colecções de fotografia.
Iniciada em 2002 pela mão de Mario Rotllant, ele próprio um coleccionador de fotografia, a Fundação tem uma programação variada promovendo debates, colóquios e centra-se na apresentação de colecções de fotografia de particulares e institucionais. Colecções portuguesas já foram objecto de exposições, como a colecção particular do galerista Mário Teixiera da Silva (2004/2005), e a nossa Colecção do Centro Português de Fotografia (2002/2003). Cada exposição é acompanhada de um excelente catálogo.

Há diferentes modos de coleccionar, pode-se coleccionar como um vício que não faz mal à saúde, como nos diz Helga de Alvear, que recentemente expôs a sua colecção no CCB, e a sua colecção foi a primeira a ser apresentada na Fundação, como coleccionar por puro investimento. O gráfico que apresento não é a valorização de nenhum activo financeiro, é o gráfico que nos dá nos últimos dez anos a valorização das fotografias de Diane Arbus.

Rentabilidade de 700% em 10 anos é difícil de obter no mercado financeiro. Contudo é interessante reparar que o preço das fotografias de Arbus seguem a tendência geral do mercado accionista, queda abrupta a partir de 2000, e está ao agora ao rubro. Hoje, e derivado destas subidas de preços, muitos são os que querem coleccionar fotografia. Quem pode comprar porque não arriscar?
Mário Teixeira da Silva, tem uma dupla faceta, é galerista e coleccionador. Mas apesar deste cruzamento de interesses, diz-nos Filipa Valladares, cordenadora da Foto Colectania em Portugal, Mário separa sempre claramente o galerista do coleccionador, comprando obras que nunca pensaria expor. A provocação do olhar é sempre o que está por trás das suas escolhas, continua.

Actualmente a Fundação tem em exposição “Sus ojos les delatan” a colecção de fotografias de Lola Garrido, directora artística da Foto Colectania, que estará até 24 de Março.

Lola Garrido, no catálogo, escreve “não me recordo de ter feito nada mais importante na minha vida do que me deixar fascinar pelas imagens”. “Coleccionar é uma arte,... é saber discernir o que se quer e o que se recusa,... a colecção é uma colecção pessoal, um estado de espírito,... é o reflexo da minha escala de interesses e de valores” continua. Basta olhar para as fotografias do catálogo que percebemos tudo isso, as fotografias pelas quais se deixou fascinar denunciam-na.

E agora olhemos para uma das imagens que fascinaram Lola Garrido, e que também a mim me fascinou:

RODCHENKO, Alexander The artist's mother at the table, 1928, 16,5 x 22,4 cm

Quem gosta de fotografia certamente conheçe a mãe de Alexander Rodchenko, com os seus óculos redondos de aros finos que fez capa de livros.


Na fotografia da colecção, The artist’s mother at the table, entramos na sua intimidade, ...da mesma forma como Rodchenko entrara na intimidade das novas casas comunais de Moscovo, onde também somos confrontados com uma residente a beber chá a uma mesa. A mulher está sózinha, embora as outras duas chávenas sugira uma vivência comunal.

RODCHENKO, Alexander, Interior de apartamento no edifício "Ginsburg", 1932, 24 x 30 cm

The artist’s mother convida-nos a fazer a ligação.

Para quem não puder ir a Barcelona o catálogo encontra-se à venda em Portugal.
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sábado, fevereiro 24, 2007

Los Angeles é cinema

O cinema continua a seduzir Los Angeles. Amanhã todos os holofotes serão direccionados para a cidade onde se desenrolará a entrega dos Óscares. Los Angeles e o cinema continuam indissociáveis.
Los Angeles, onde há oitenta anos se inventou Hollywood é uma cidade desmesurada, onde só se anda de carro.


Dennis Hopper, Los Angeles, 1961

O que há para ver em L.A.? Curioso, nem é preciso pronunciar Los Angeles. É verdade, temos o Sunset Boulevard com a estreita e inclinada escadaria, onde num filme o bucha e o estica tentaram fazer subir um piano...é, o cinema criou o Sunset, local a percorrer.


Cidade que circunda os estúdios de cinema, que há a dizer da relação entre os filmes e a cidade? Numa perseguição de carros, acelaramos numa rua, para no instante seguinte capotarmos numa qualquer outra ponta da cidade. Nunca uma cidade foi tão filmada de um modo tão imperfeito.

E os fotógrafos, como é que a viram?

Los Angeles extende-se na horizontal,


(parte do Sunset Boulevard).

e essa horizontalidade inspirou Ed Ruscha. Every Building on the Sunset Strip, título do livro, foram fotografados e minuciosamente montados num livro desdobrável de 8,20 metros.




On The Sunset Strip, Edward Ruscha, 1966


Mas a horizontalidade não foi a única fonte de sedução, a cor das piscinas foi outra. Se o cinema adoptou a cor logo que a técnica o permitiu, a fotografia ainda era a preto e branco. Ruscha não se sentia fotógrafo, e a cor seduziu-o.

Do livro, Nine Swimming Pools, Edward Ruscha, 1968
A crítica escrevia "ninguém tem nenhuma ideia do que Ruscha anda a fazer ou a tentar fazer, nem ele próprio nos elucida quando lhe perguntamos, a crítica ficou confusa com os livros de Ruscha. Não eram arte, porque não exprimiam a sua visão pessoal, não eram documentos, porque o conteúdo das fotografias era demasiado banal para ser informação. Neutro foi a palavra que encontraram para definir o seu estilo. O estilo neutro derivou em Pop Art. Ruscha, diz que são livros fotográficos.

Edward Weston, o fotógrafo da natureza de Point Lobos, não ficou imune à Metro-Goldwyn –Mayer e à Twentieth Century-Fox.
Objectos encontrados acidentalmente, um barco do rio Mississippi ancorado numa cidade que nada tem do Mississippi,
Ghost Sets, M.G.M. Edward Weston, 1939
escadas para um cenário de filme que não levam a lado nenhum revelam a sua ironia por esta cidade inventada.
M.G.M. Hollywood, Edward Weston, 1939

Robert Frank, já na fase em que não tinha mais nada a fotografar, numa dialéctica entre filme e fotografia, faz fotografias das suas polaroids e monta-as de forma cinemática. A montagem Fantastic Sandwiches Venice, em L.A., é um ensaio de foto-filme,
Fantastic Sandwiches Venice, L.A. Robert Frank, 1975
onde Frank estabelece um diálogo entre o movimento da câmara e o gelo da imagem fixa.
No que diz respeito às montagens, gosto dessa forma, diz-nos Frank. Fico sempre satisfeito com a coincidência. Não podi
a continuar a trabalhar da mesma forma com as imagens anteriores.
Movie premiere- Hollywood, Robert Frank , do livro The Americans

Garry Winogrand sente-se bem na cidade, tudo à sua volta é velocidade e frenético, condiz com o seu espírito, mas Los Angeles não é para peões, e Winogrand cede o deambular na rua pelo carro. As altas velocidades que utiliza nos seus filmes, congelam a velocidade da cidade.
Los Angeles, Garry Winogrand, 1964

E finalmente Los Angeles a cores.
Los Angeles, Andreas Gursky, 1999

Andreas Gursky gosta do grande, Los Angeles captivou-o. Gursky mostra-nos a cidade em ecrã gigante.

E vamos terminar com fotografias de Wim Wenders em Los Angeles a falar de cinema.

And once
I drove from Los Angeles
All the way up to Barstow
In the middle of the Mojave Desert,
Together with Dennis Hopper,
To see Nick.
Milos Forman was shooting the movie version of “Hair” there
And Nick palyed the “General” in it.
Dennis Knew Nick from a long time ago,
Whwn Nick had given him a small part
In “Rebel Without a Cause”.
Dennis became friends with James Dean…
During that night in Barstow
The conversation inevitably turned to James Dean
And Nick declared to us:
“I taught him how to walk!”

I’m ready to believe it
Especially if you Know
That this mysterious man
Walking through the scene in the final take of “Rebel…”
Is Nick himself.
Next time, take a look at his walk.
Wim Wenders
E os fotógrafos como é que a viram ?
Los Angeles é cinema.

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