sexta-feira, março 16, 2007

Fotografar arquitectura

Inaugurou ontem na Fondation Le Corbusier em Paris, a exposição Le Corbusier – Lucien Hervé Construction /Composition. Trata-se de uma homenagem ao fotógrafo que acompanhou o mestre desde 1949 até à sua morte em 1965. A Fundação apresenta originais e provas de contacto dos edifícios l’unité d’habitation de Rezé-les-Nantes, da Cité Radieuse de Marselha do Capitole de Chandigarh da capela de Notre-Dame du Haut de Ronchamp e do Pavilhão Philips de Bruxelas.
Lucien Hervé (n.1910, Húngaro), nome que usou quando fez parte da resistência, e que László Elkán acabou por adoptar, tornou-se cidadão françês em 1938. Hoje quase que se pode dizer que conhecemos o trabalho de Le Corbusier através das fotografias de Hervé, amplamente divulgadas em livros e revistas. A interpretação que faz da obra do arquitecto leva-o quase à abstração.

“Uma escada separa, uma rampa une” é a frase de Le Corbusier que inspirou Vitor Palla num dos traços principais da casa que construiu e habitou com a sua família nos anos 40/50.
Projecto da casa Alto do Duque de Vitor Palla

“Isto que agora se chama Restelo chamava-se a Encosta da Ajuda”, diz Palla numa entrevista ao Notícias Magazine para especificar o local da casa. Na altura (Fevereiro de 2000) a Fundação Gulbenkian de Paris apresentava uma exposição das fotografias da casa do Alto do Duque. Vitor Palla para além de arquitecto, escultor, pintor, editor foi também fotógrafo. Palla não precisou de um Lucien Hervé, ele próprio interpretou a sua obra. É João Palla, o neto, também ele arquitecto, que dá forma à exposição das fotografias que até então faziam parte do álbum de família.
De Paris, a exposição veio para os Banhos de S.Paulo a sede da Associação dos Arquitectos em Lisboa.
Aqui ficam algumas dessas magníficas fotografias, que através das crianças, as suas filhas, dão a dimensão humana da sua arquitectura.
A exposição Le Corbusier – Lucien Hervé Constrution/ Composition está até ao dia 23 de Junho. Para mais informações veja o site Paris-art.

A blogosfera tem estas maravilhas, João Palla, o neto, leu este post, (ver comentários), e quis acrescentar "uma perspectiva muito mais bela da moradia" do seu avô. Que bela imagem, obrigado João Palla.
Victor Palla, casa Alto do Duque

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quinta-feira, março 15, 2007

A fotografia na China actual

A escolha do tríptico de Zhang Huan, para anunciar o programa da PhotoEspaña de 2007 (PHE07) é mais um eco de que a fotografia contemporânea chinesa está na moda. Mas não é só ao nível da arte que a China está na moda. O acelerado crescimento económico deste país tem atraído nos últimos anos a atenção mundial.
Dependente do petróleo para manter a sua crescente indústria a funcionar, a China afecta hoje o preço do crude nos mercados internacionais. Portugal, dependente da importação deste bem, sabe bem as consequências. A China deixou de ser um país fechado e hoje a globalização é real. Os riquexós e as nuvens de dióxido de enxofre provenientes da queima de carvão que enfestavam o ar das cidades chinesas descritas em A Condição Humana de André Malraux estão hoje distantes.

Deng Xiaoping, sucessor de Mao Tsé-Tung, quando assume o poder em 1978 inicia as grandes reformas económicas desmantelando a economia de planificação centralizada de Mao. Exceptuando o carvão, a China tem poucos recursos naturais- petróleo, matérias primas e água- para suportar os 1300 milhões de habitantes. Perante esta escassez, os políticos de Beijing abriram a China ao exterior, política que se consolidou com a entrada da China no WTO (World Trade Organization). As substanciais transformações do CCP (Chinese Comunist Party), hoje ironizado por muitos como Chinese Capitalist Party, são evidentes. A China é hoje governada por uma geração que se formou nas melhores universidades dos Estados Unidos. A diferença é abissal em relação aos anos de Mao, não só em termos económicos como artísticos. Com o triunfo do comunismo em 1949, a Républica Popular liderada por Mao, isolou os artistas chineses de tudo o que se passava ao nivel das artes. Na “China Pictural”, a revista oficial do partido, editada a partir de 1950 e baseada no modelo da “URSS em construção”,

a fotografia era utilizada únicamente para fins de propaganda. Com Xiaoping, a China recupera do atraso a que tinha sido condenada. De forma rápida absorve do ocidente não só as tecnologias necessárias para o seu desenvolvimento económico como de uma assentada absorve todos os movimentos artísticos que tinham entretanto ocorrido. É o primeiro contacto duma geração com a arte global. Ao nível da fotografia, surgem livros e revistas que divulgam a sua história desde Alfred Stieglitz a Cindy Sherman. O estilo de vida dos chineses muda. Mais de 100 milhões de chineses acedem hoje à Internet, nos leilões de arte, o record sucessivo que as peças atingem são frequentemente justificadas pela presença de uma nova geração de coleccionadores chineses e a casa e o hall de entrada nestes anúncios publicitários podem se passar em qualquer parte do mundo.


A China afasta-se dos costumes e comportamentos passados, e os artistas contemporâneos reflectem isso nas suas obras, o passado pareçe estar mais vivo que o presente. Hong Lei em Autumn in the Forbidden City, revisita a emblemática Cidade Proibida. Hong Lei fotografa um passáro mutilado, no palácio imperial.

Hong Lei, Autumn in the Forbidden City, East Veranda, 1997

Hong Lei, Autumn in the Forbidden City, West Veranda, 1997

“These are the first artworks in which I used photography. The bird is empty inside. I wanted to make a work about five thousand years of Chinese history and its unchanging political system. China has been dominated by tyranny for thousands of year and is still a one-party system. You cannot stamp out tyranny. It still exists and the palace symbolizes its persistence. The jeweled bird represents the emperor’s concubines. The concubine has been left to die, which symbolizes the suffocation of artistic expression by tyranny. Over time I have come to see the dead bird as the embodiment of my own self…During the time this photograph was made…the entire world around me in China kept changing. Many beautiful traditions such as the ancient gardens were being demolished to make way for new cities. I was really concerned about history being totally destroyed. I needed an outlet to express what I was feeling about this new reality”.

Mas este crescimento galopante rumo a uma sociedade de consumo ao estilo ocidental têm outras consequências drásticas. Se o mercado aberto trouxe dinheiro e conforto, a poluição é hoje um dos maiores perigos que a China enfrenta, é o preço a pagar pela riqueza.

Lu Guang, Pollution, 2005

Para se ter uma ideia da gravidade, se a China se aproximasse dos níveis dos EUA no que respeita ao número de automóveis por família, cerca de 600 milhões de carros circulariam nas estradas chinesas, o que corresponde a mais do que o total de veículos hoje existentes no planeta. Os artistas chineses pressentem este perigo e através da fotografia e vídeo, os meios priveligiados da arte actual chinesa, alertam para os riscos desta sociedade de consumo que só reconheçe a satisfação individual. Zhang Huan, o artista que a PhotoEspaña utiliza no seu cartaz, usa o seu próprio corpo nas performances que realiza. Para ele “The body is the only direct way through which I come to Know society and society comes to Know me. The body is the proof of identity. The body is language”. Realiza Family Tree,

Zhang Huan, Family Tree, 2001

uma sequência de nove fotografias, em que de forma gradual a sua cara desapareçe sob a acumulação de uma caligrafia que revela graus de parentesco, títulos de histórias chinesas e de elementos primordias como a terra, o fogo e a àgua. A rápida metamorfose que se opera na China conduz o indivíduo para a morte.

Em cada ano, cerca de 10 milhões de trabalhadores rurais, procuram as cidades, aspirando a uma vida melhor. Este crescimento acelerado das cidades marca uma profunda mudança de uma cultura agrícola para uma sociedade industrial. Os artistas não ficam imunes à amplitude e rapidez desta transformação.

Sze Tsung Leong, Chaoyang District, Beijing, 2002

Sze Tsung Leong, Chongqing City, 2003

O ciclo desenfreado de destruição e construção é o tema do trabalho de Zhang Dali. Regressado de Itália, onde viveu durante seis anos e onde viu os primeiros graffiti, chega a Beijing em 1995 e depara-se com a demolição acelerada do centro da cidade. Começa então a desenhar o seu perfil nas paredes das casas demolidas, sugerindo testemunhar o que se passa.

Zhang Dali, Demolition: Forbidden City, Beijing, 1998

Zhang Dali, Dialogue: Full Link Plaza, Beijing, 1998

De 1995 a 1998 desenha mais de duzentos perfis e transforma essas ruínas em locais de arte, embora efémeros. Utiliza a fotografia para documentar a sua intervenção, e nos seus enquadramentos visualizamos através das ruínas as novas torres que caracterizam agora Beijing. Para Zhang Dali, a monotonia deste estilo internacional irá afectar a forma de vida de cada um. Nas novas cidades, iguais a tantas outras no mundo, as relações humanas estão condenadas à degradação.
A calamidade que ocrorre nas cidades chinesas é tema recorrente. Luo Yongjin de uma forma mais analítica condensa em várias fotografias diferentes momentos da construção, como se se tratasse de um diagrama. A montagem final dá origem a uma imagem monumental. Luo Yongjin, capta o drama do que está a acontecer em todas as cidades chinesas.

Luo Yongjin, Lotus Block, 1998/2002

Mas todos estes trabalhos, assentes na visão pessoal de uma geração, só fazem sentido na conjuntura actual chinesa. É na dualidade, da explosiva expansão económica simultânea com a perca das tradições, que a maior parte da nova geração se exprime. A arte não sofreu a mesma globalização que a economia.
Qual o resultado destas mudanças aceleradas? Nem mesmo os artistas conseguem avaliar.
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terça-feira, março 13, 2007

Nam June Paik na Fundación Telefónica

Nam June Paik

Bill Viola utiliza o vídeo, Callaway apropria-se dos vídeos de outros, Nam June Paik (Seul 1932-Miami 2006) foi o pioneiro no uso do vídeo.

“...o tubo dos raios catódicos substituirá o quadro” escreve Nam June Paik em 1965. Não se enganaria, no início dos anos 70, a Galeria Castelli em Nova Iorque começava a apresentar vídeos como uma nova forma de arte visual. As escolas de arte iniciavam os seus alunos com programas regulares cujo tema principal era o vídeo. Nam June Paik, foi um dos primeiros artistas com que Viola trabalhou e a sua contribuição na arte do vídeo foi muito importante. O que Viola mais absorveu de Paik “ foi o respeito irreverente que ele tinha pela tecnologia”.
Faz agora um ano que morreu o “pai do vídeo”. A Fundación Telefónica, em Madrid, apresenta até dia 20 de Maio, “Nam June Paik y Corea: de lo fantástico a lo hiperreal”, a primeira exposição realizada na Europa, após o falecimento do artista.

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sábado, março 10, 2007

Benjamin Callaway

Hoje, pelas 17 horas, conversa com Benjamin Callaway, no pequeno auditório da Culturgest.

Benjamin Callaway, em exposição na Culturgest de Lisboa até ao dia 25 deste mês, usa imagens vídeo de amadores que transfigura até à abstração. O vídeo, cuja origem remonta aos anos sessenta, assemelha-se à fotografia pela sua banalidade. Na década seguinte, o vídeo substituiu em parte a fotografia. Prefere-se o vídeo para recordar mais tarde, as festas de aniversário, os passeios de domingo a centros de lazer, casamentos...
São estes vídeos, no formato VHS, agora em vias de extinção, que Callaway compra em feiras e que constituem a sua matéria prima. É deste “arquivo arbitrário” que Callaway retira as imagens para os seua vídeos. Votadas ao esquecimento, Callaway apropria-se destas imagens. “O meu arquivo”, diz Callaway “reflecte aspectos da sociedade e da cultura onde é extraído,..., escrita a partir de passatempos, ansiedades, diversões, paixões e desejos, que acabam, por assombrar as montagens finais, ainda que indirectamente”. No texto de parede da exposição é explicada a forma como Callaway transforma as imagens dos vídeos: “As imagens são então submetidas a um laborioso processo de manipulação que as transfigura por completo. Numa primeira fase, o artista transfere-as sucessivamente de um gravador de VHS para outro, até ao ponto em que elas se dissipam, perdendo práticamente toda a sua informação. Decompostas e desfiguradas, as imagens são então reconstituídas pela sua filmagem com uma câmara digital apontada ao ecrã de televisão”. Pelos efeitos sucessivos de decomposição, conseguimos ao ver os vídeos de Callaway perceber alguma narrativa, embora a abstração seja dominante. Em Rigadoon, um vídeo passado num centro de patinagem,
Rigadoon, 2004-2005, Ben Callaway
a abstração é levada a um extremo que pensamos estar perante pintura abstracta em movimento.
Ben Callaway
A banda sonora de Chris Reeves, que acompanha a montagem é tão importante como as imagens.
Os vídeos de Callaway lembraram-me o “Blow-up”(1966), de Michelangelo Antonioni. Transformação da imagem, pelas sucessivas ampliações e o fotografar das ampliações, até à abstração total.
“Parece um dos quadros do Bill”, diz a amiga do fotógrafo (David Hemmings) quando olha para a única prova deixada em sua casa.
Bill, o amigo artista, ao olhar para os seus quadros diz:
“ não significam nada quando os pinto. É uma confusão. Depois descubro algo a que me agarrar...E acaba por ganhar algum sentido e tornar-se coerente. É como descobrir uma pista numa história de detectives”.
Os amantes a namorar no parque são surpreendidos por alguém que se apropria das suas imagens.
Em casa, o fotógrafo tenta descobrir algo a que se agarrar...fazendo uma narrativa com as fotografias ampliadas.
Mas as imagens só fazem sentido no seu contexto, fora dele, tornam-se irreais, como a deixada por Vanessa Redgrave na casa do fotógrafo. No final do filme o célebre jogo de ténis sem bola, só tem significado para aquele grupo,
para nós espectadores é irreal, como são irreais, os vídeos de Callaway que só fizeram sentido para o grupo restrito de quem os filmou. O espectador, tal como o fotógrafo de Antonioni, pode é entrar nesse jogo.

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quinta-feira, março 08, 2007

Bill Viola no Alhambra

O Palácio Carlos V dentro do complexo do Alhambra, foi construído para a residência de verão da família real espanhola, em 1527.

Com uma arquitectura curiosa, um quadrado que toma a forma de circulo no interior, é aqui neste misterioso palácio, que nunca chegou a ser habitado, que agora se pode ver até 18 de Maio a exposição “Las Horas Invisibles” de Bill Viola.
Ablutions de 2005, um dos trabalhos mais recentes de Viola em exposição, é um díptico (forma frequentemente utilizada na primeira época da história da pintura), com imagens projectadas em ecrãns digitais colocados na vertical. O cristal líquido dos ecrãns LCD, apresentam imagens de uma qualidade que seduziram Viola. O jorro de água, é nítido, real e uniforme.
A água, fluido onde todos nós nascemos, elemento regenerador da vida, é o elo entre a vida e a eternidade através da purificação. Em Ablutions, a ideia de purificação é-nos dado através da expressão emocional das mãos, num fluido contínuo de movimentos lentos sob o jorro contínuo da água.



Instalação sem som, a água é o fio conductor para a paisagem sonora das inúmeras fontes existentes nos jardins e palácios do Alhambra.
No século XIII, al-Ahmar ibn Nasr, conhecido como Abenamar funda a dinastia nazari, com o nome de Muhammad I. A abundância de água, proveniente dos rios, Darro e Genil, levou os califas desta dinastia a criarem em Alhambra um paraíso na terra. Passeando nos jardins e hortas do palácio Generalife, o som da água a jorrar das fontes e nascentes é constante. Jardins emprisionados em pátios, propiciam a intimidade.
Muitas são as lendas de amores que aqui se viveram. Lenda de amor, de origem celta, é a ópera de Wagner, Tristão e Isolda. O amor é tão intenso e profundo, escreve Viola sobre o vídeo que realizou para esta ópera, que para ser consumado na sua plenitude, Tristão e Isolda terão de transcender a própria vida. As imagens que Viola criou para esta ópera representada em 2005 e encenada por Peter Sellers, são representações interiores e simbólicas. Curiosamente Viola cita Seyyed Hossein Nasr, que escreve: “são os reflexos do mundo espiritual no espelho do material e temporal”. Viola, não quis que as suas imagens ilustrassem ou representassem directamente a ópera, Viola criou um mundo de imagens com uma existência paralela à acção de cada cena. No primeiro acto, Viola apresenta a Purificação, o acto universal de preparação do indivíduo ao sacrifício e à morte simbólica, necessária à transformação e ao renascimento do próprio eu.


Através da água, tal como em Ablutions, o ser humano purifica-se.

Outro trabalho recente em exposição, The Darker Side of Dawn, também de 2005, é uma sequência de uma velha azinheira filmada durante as várias horas do dia, do nascer do sol até a obscuridade total da noite. A sequência é condensada de forma a sentirmos o ciclo de luz, onde se alcançam os extremos, a luz e a obscuridade total.

O vídeo é representado em toda a largura da parede.
Aqui o tempo é o elemento chave, como também o é no seu trabalho magnífico Catherine’s Room de 2001, políptico em vídeo com cinco ecrãs de LCD, baseado na pajela de Andrea di Bartolo. Em cinco paineis, Bartolo representa as orações de Santa Catarina.

Ao contemplar pinturas antigas, Viola descobre formas variadas e fléxiveis de representar o tempo. No renascimento, os artistas não se sentiam restringidos a representar um único momento no tempo. Na mesma tela ou fresco, representavam a mesma pessoa em vários lugares.
Fresco de Masaccio, 1425
Jesus ao centro explica a Pedro, representado três vezes, que o dinheiro para pagar a taxa do templo está na boca do peixe, ver lado esquerdo do fresco, e no lado direito Pedro paga ao cobrador a taxa.


O vídeo Chaterine’s Room, mostra cinco imagens paralelas do mesmo espaço com tempos diferentes. Para Viola Catherine’s Room representa simultâneamente três níveis temporais.

O primeiro tempo, o tempo real, é o tempo que duram as acções que Catherine desempenha em cada um dos painéis, yoga, costura, leitura,... Cada acção flui na acção seguinte e os cinco painéis representam a mesma Chaterine em acções diversas, é a ideia da representação de um tempo paralelo. Por último a ideia do tempo natural. No espaço do quarto, a janela, a única abertura para o exterior, representa simultaneamente dois ciclos temporais, o ciclo do dia e o ciclo das estações do ano. Para Viola estes dois ciclos representam o tempo natural.
Se a aparência de Catherine não muda, esta atravessa na realidade diferentes fases da sua vida, do nascimento à morte, para Viola, é a representação do tempo natural no seu sentido mais amplo.
O ciclo natural está presente nos jardins e hortas do Alhambra. O ciclo repete-se há milhares de anos, hoje, tal como nos primórdios, as hortas são cuidadas e os jardins estão agora a desabrochar para a primavera. Os caramachões, aguardam o desabrochar das roseiras, recentemente podadas, para os cobrirem. Presenciamos o início da primavera.
Para Viola a essência do vídeo é o tempo.
Observance, trabalho de 2002, finaliza a exposição. Surrender, de 2001, seria o trabalho perfeito para a terminar. Ambos os vídeos tratam de um tema muito querido de Viola, as expressões emocionais. Surrender descreve uma trajectória emocional de dois actores, na qual Viola acrescenta um elemento metafórico, a água, onde ambos os actores se reflectem e submergem. As ondas provocadas pela submersão são cada vez maiores, tornando as imagens distorcidas como os estados emocionais dos actores. Os dois ecrãns, em LCD, estão colocado na vertical a tocarem-se nos extremos.

Surrender, utiliza a camara lenta e a inversão para intensificar as transformações emocionais dos dois actores. Para Viola este trabalho representa o “ Choro. O regresso à fonte das lágrimas”. Aos dois actores Viola disse “pensem que este tanque está cheio de lágrimas”. Os jardins do Alhambra, estão repletos de lagos que reflectem os palácios.
Os canais que irigam e transportam a água para as fontes e lagos, foi uma proeza de engenharia da dinastia nazari.
A água é um dos grandes tesouros do Alhambra. Reza a lenda que pela “Puerta de los Pozos”, Boabdil partiu chorando quando entregou o Alhambra aos reis católicos.
Fui a Granada para rever o Alhambra e ver Bill Viola.

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