domingo, fevereiro 18, 2007

As contradições do Estado Francês: Monique Sicard no CCB

Ao ler os dois últimos posts, percebe-se o tema proposto. Martin Parr responde com “No French Photography”, à lei que obriga a uma autorização prévia do fotografado e muitos seguem Parr. Não iriam parar a prisão, diz-nos a rir Monique Sicard que esteve 6ª feira passada no CCB a orientar o seminário La Photographie: un bien Public?, mas a tendência é evitar problemas, e cada vez mais as pessoas estão ausentes nas fotografias, referindo-se a uma exposição recente que vira de Raymond Depardon.
No lado oposto, a França teve um ministro como Jack Lang, que na década de 1980 entende o atraso em que caíra a França na valorização do seu património fotográfico, e embora isso lhe custe uns milhares no orçamento do seu ministério tenta remediar o mal. Como terá dito a Robert Delphire, como poderemos democratizar a história, o património fotográfico...homem dinâmico, pôs de pé o Centre Nacional de Photographie, diz-nos Sicard.

François Arago, precisamente 140 anos antes democratizara a invenção do daguerriotipo. Lermos os relatos da sua intervenção na Academia das Ciências no dia 19 de Agosto de 1839, percebemos a admiração que Sicard tem por Arago.
Ao contrário de outras grandes invenções que passaram desapercebidas do público, a fotografia teve desde o dia do seu anúncio um grande impacto. Duas horas antes do anúncio os curiosos e entusiastas encheram a sala da Academia e muitos tiveram de aguardar ansiosamente no pátio a divulgação do segredo, lemos numa descrição de Marc-Antoine Gaudin, futuro redactor do primeiro jornal dedicado à fotografia, La Lumière, que continua “ ...Enfin la séance se termine, et le secret est divulgué. Pour ma part, je cours aussitôt acheter de l’iode, regrettant déjà de voir baisser le soleil, et d’être obligé de remettre l’expérience au lendemain...” e seguiu-se uma autêntica daguerromania. A França democratizava a invenção fotográfica.
Feito notável para a altura, três meses depois, Lerebours, enviava fotógrafos para diversos pontos do globo, e em 1842 publica em fascículos a obra “Excursions daguerriennes: villes et monuments les plus remarquables du globe”. Era uma inovação fantástica, em casa, sentado confortávelmente no sofá, podia-se viajar pelos lugares mais recônditos do planeta.

Regressando à fotografia contemporânea, o seminário passava entretanto a uma conversa informal com os que quiseram ficar para ouvir Sicard, metade da assistência saíra, talvez já soubessem tudo. Vou mostrar a colecção da Caisse de Dépôts et Consignations, querem ver? Claro que queriamos, embora a Culturgest, em Janeiro de 2003, nos dera a conhecer parte dela na exposição Douce France.


Vou escolher as que mais gosto, diz Sicard e passou à projecção de dois trabalhos que analisavam o que se passou na guerra do Golfo: Sophie Ristelhuber, e a sua série Fait de 92 e Thomas Ruff na sua série Nacht 92/93.

Agora peço desculpa ao leitor pela interrupção, mas vou contar como iniciei o blog. Por impulso momentâneo mais do que uma ideia premeditada, fui para o computador e segui os passos que me eram pedidos para a criação do blog. O problema surgiu quando chegou a altura de inserir as imagens que queria, não conseguia. Alertaram-me que as tinha que redimensionar, mas só no dia seguinte consegui instalar esse programa. Hoje é bem visível a falha no primeiro post, e a tentativa de remediar a falta de imagens com o segundo post. Já fui tentada a corrigir, mas nunca o fiz. Acho engraçado deixar estas falhas de principiante. Mas por vezes sinto alguma frustração de não ter ilustrado o texto. Sicard deu-me uma ajuda preciosa ao escolher precisamente essas imagens, e vou finalmente aliviar a frustração ao mostrar as fotografias que ficaram em stand-by.

Questionava eu nesse post realidade ou ficção?


Ristelhueber no seu trabalho Fait, sobre a guerra do Golfo alterna vistas a partir do solo com vistas aéreas do deserto do Koweit. Fotografias de grande formato (100x130 cm)sem referência de escala para desorientar quem vê, mostram quer as marcas dos objectos pessoais como as marcas de destruição bélica deixadas no terreno pela artilharia de guerra americana.



Sophie Ristelhueber, Fait, 1992

Dois anos mais tarde, a série Every One, é um trabalho de maturação das guerras que testemunhou. Corpos anónimos submetidos a cirurgias são fotografados num hospital de Paris.
Sophie Ristelhueber, Every One, 1994
As cicatrizes dos corpos Every One reenviam-nos para as marcas deixadas pela artilharia no deserto do Koweit e criam como que uma força simbólica dos corpos mutilados da guerra. Da imagem fidedigna das cicatrizes somos levados implicitamente para o horror de todas as guerras.
Na guerra do Golfo, todos nós em casa frente aos nossos televisores fomos surpreendidos pelas imagens que a CNN difundiu em directo desta guerra.
Ao longo dos dias habituamo-nos às imagens fornecidas via satélite que invadiam os nossos ecrãs. De tons esverdeados, mais pareciam imagens de jogos de uma guerra virtual. Thomas Ruff, na sua série Nacht 92/93, revela de forma irónica esta crise do referente. Uma série de imagens nos mesmos tons esverdeados e cujo conteúdo é quase imperceptível, remetem-nos para as imagens divulgadas da guerra do Golfo.
Nacht, série 5 ,10 e 14 , Thomas Ruff, 92/93

Walter Nidermayer, Gabriele Basilico, Suzanne Lafont, Florisa.. e a mostra prosseguia agora com uma incursão pelo território urbano. ..
G.Basilico, Boulogne-sur Mer, 1984
Valérie Jouve, Sem título, 1994
à medida que projectava as fotografias Sicard foi referindo o que era a Caisse e como constituira a sua colecção. Instituição pública francesa, criada em 1816, tem por missão fundamental a gestão e salvaguarda dos fundos privados que, por decisão do Estado, beneficiam de protecção especial. Em 1990 a Caisse iniciou a sua colecção de obras fotográficas, e reunia aproximadamente oitocentos trabalhos. O objectivo da colecção era propor uma descrição da França contemporânea. Reunia? Sim disse bem, porque em 2006, a Caisse doou a colecção ao Centre Pompidou que a teve em exposição. Porque terá a caisse doado ao Pompidou uma colecção que tão acarinhadamente constituira? A Caisse estaria certamente mais bem preparada para a perservar diz-nos Sicard que também não sabe explicar o porquê da doacção. Passa de uma instituição pública para outra instituição pública?

E a conversa continua, muitos destes fotógrafos, diz-nos Sicard passaram pela Datar, abreviação que significa Délegation à l’aménagement du territoire et à l’action régionel, uma iniciativa do ministério de ordenamento do território. Na altura, década de 1980, os sistemas de informação geográfica (SIG) estavam no início, e o ministério, que queria um levantamento do ordenamento do território pôs a seguinte questão, será necessário um levantamento fotográfico visto estar a ser utilizado o SIG? Entendeu o governo e bem que o levantamento fotográfico era complementar, e o ministério arrancou com o projecto fotográfico em 1984 hoje conhecido como Mission Photographique de la Datar. François Hers e Latarjet, responsáveis pelo projecto não cederam a pressões do ministério da cultura e recusaram os fotógrafos sugeridos por Robert Delphire, queriam garantir uma diversidade de olhares neste projecto comum. Raymond Depardon, Gabriele Basilico, Sophie Ristelhueber
Sophie Ristelhueber,Datar 526, 51,5 x 42,5cm, 1986
Sophie Ristelhueber, Saint Clément, Datar, 84/85
G.Basilico, Le Crotoy,1984
Jean-Louis Garnell, 1986, Datar
fizeram parte do núcleo inicial dos treze fotógrafos. Em 1985 é editado o livro Paysages, Photographies,
que esgotou rápidamente e os trabalhos foram exibidos nesse mesmo ano no Palais de Tokyo. A Missão apresentava-se como um work in progress, expondo os trabalhos que se iam fazendo. O sucesso da exposição foi tal que se prolongou por mais dois meses. A motivação principal da Missão diz-nos Latarjet “ est de nourrir un movement nécessaire en faveur du paysage. La Datar a appris en effet que la qualité des espaces de la vie quotidienne détermine chaque jour davantage les choix que font les Français de leurs lieux d’habitation et de travail. Elle est donc au coeur de l’aménagement du territoire”. Hoje, tema tão recorrente, parece absurdo não termos acesso a esta obra ríquissima.
Sicard também não encontra resposta. A Biblioteque National de France, tem uma parte do trabalho, mas só lá indo consultar é que a podemos ver. Hoje, e só a título de exemplo, a Biblioteca do Congresso, nos Estados Unidos permite a qualquer um a consulta dos seus arquivos pela internet. Em França, falta dinheiro ou interesse?

À questão La Photographie: un bien Public?, respondo: a França precisa de outro Jack Lang que cuide do seu riquíssimo património.

Monique Sicard é investigadora no CNRS (Centre National de Recherche Scientifique) em França.
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sábado, fevereiro 17, 2007

Photo Poche



Acabou de sair o último Photo Poche dedicado a Josef Koudelka. Não é do fotógrafo mas da história desta mítica colecção que hoje vou falar.
Decorria o ano 1981, e Jack Lang então ministro da cultura de François Miterrand, percebeu a importância da fotografia como património a perservar.
Pela sua iniciativa, nesse ano é criado o Centre National de Photographie. Lang nomeia Robert Delpire, o homem que em 1958 edita a 1ª versão de Les Américans de Robert Frank, a presidir ao Centro e não satisfeito pergunta-lhe “.. qu’est-ce qu’on pourrait faire pour concrétiser tout ce qu’on a dit sur la photo, son histoire, son patrimoine, sa démocratisation?” Delpire sugere-lhe a ideia do Photo Poche. Cada livro, com um preço acessível divulgaria a obra de um fotógrafo. Lang tem pressa em recuperar o atraso e o primeiro número dedicado a Nadar, sairá nesse mesmo ano, e era lançada a colecção. Passados 26 anos o livro não sofreu alterações. Continua com a sua capa preta, o mesmo formato 12,5X19 cm, o mesmo número de páginas, 144 que apresentam 64/65 fotografias. Delpire não quer estar na moda, e resiste. A editora inglesa Phaidon quis destroná-lo e lançou uma colecção semelhante que chamou “55”, mas não passou dos vinte volumes. Delpire, continua calmamente a sua tarefa, ainda está no iníco diz.
A edição não segue uma cronologia, antes uma escolha pessoal. O mais vendido é o de Cartier-Bresson com cerca de 400 000 livros vendidos.
O preço por livro é 12,80 Euros.

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quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Martin Parr, "A quem pertencem estas mãos?"

Martin Parr, não fotografa em França, para ele "No french photography", e porquê?

Segundo Parr " A França é extraordinária. Sabemos que é um país que adora e cuida da fotografia, mas é o único país no mundo onde é ilegal fotografar desconhecidos sem préviamente ter o seu consentimento. É uma contradição incrível".

Um trabalho de encomenda sobre os europeus a Martin Parr, é claro os franceses não estão, está agora em exposição, Assorted Cocktail, até ao dia 7 de Abril, no Luxemburgo.

Na vernissage da exposição, Martin Parr assinou esta fotografia e anuncia que quem descobrir de quem são estas mãos receberá a fotografia assinada, mais uma entrada na exposição.

Martin Parr, 2006


Quem descobrir deverá enviar um e-mail para info@luxembourg2007.org

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terça-feira, fevereiro 13, 2007

O redesign do Público

Ao ler no jornal Público de domingo uma entrevista a Mark Porter, “um dos melhores em design editorial e criou a imagem do novo Público – o que estará nas bancas a partir de amanhã”, confirmamos a crise porque passam os jornais. Crise logo revelada no início da entrevista: “Como pensa que vai ser o futuro dos jornais?”, a que Porter responde “...Os jornais não terão um futuro muito longo como meio de comunicação de massas...”. É preciso renovar, mas Porter não acredita que o design por si só possa resolver o problema, os jornais não oferecem o que as pessoas querem ler, continua. Um pouco mais à frente “O que é que nos pode dizer sobre o redesign do Público?” Porter diz-nos que o Público é um jornal sério e inteligente, e o design actual mostra isso, mas também o mostra cinzento e chato. Por isso, continua, a essência do projecto consistiu em preservar essa seriedade e autoridade, mas ao mesmo tempo torná-lo mais legível e visualmente interessante para os leitores.
Toda esta crise me levou a pensar no jornal L’Illustration, criado em 1843, e o sucesso que obteve pelas suas ideias inovadoras. Se quisermos pôr um ovo de pé, continuamos hoje a utilizar a ideia de Colombo. Os jornais da actualidade preferem o redesign para os manter de pé. O mercado o dirá. O artigo de Thierry Gervais da EHESS-Paris III, “ D’après photographie, premiers usages de la photographie dans le journal L’Illustration”, fala-nos da sua investigação ao arquivo do L’Illustration e que passo a expôr.

Após o anúncio oficial da invenção da fotografia em 1939 por Arago, na Academia das Ciências em Paris, houve logo quem se interessa-se em descobrir um método que a reproduzisse de forma mecânica. Niépce de Saint-Victor, Lemercier, Négre, Talbot, Poitevin, foram alguns dos que se lançaram em experiências que visavam a reprodução fotomecânica. Poitevin foi no entanto o que consegiu um método mais simples e eficaz. Contudo nenhum dos métodos conseguia juntar imagens com os caractéres tipográficos. Só com a similigravura tal foi possível, e é só em 1880 que o Daily Graphic de Nova Iorque, publica a primeira fotografia reproduzida a partir do original.

Mas antes mesmo da invenção fotográfica, os jornais já eram ilustrados. Tendo como base o desenho, o método de reprodução através da gravura permitia aos jornais juntar texto com ilustrações, e os aperfeiçoamentos sucessivos permitiram que no início do século XIX, a boa qualidade das ilustrações associada a um redução de custos, possibilitassem a vulgarização dos jornais ilustrados. O semanário L’Illustration, como o próprio nome indica, foi um jornal que apostou na ilustração como uma nova forma de informar os leitores. Em 1843, quando surgiu, o L’Illustration dizia o seguinte: “Combien les descriptions écrites, même les meilleures, sont pâles, inanimés, toujours incomplètes et difficiles à comprendre, en comparaison de la représentation même des choses...Les choses qui arrivent à l’esprit par l’oreille sont moins facile à retenir que celles qui arrivent par les yeux”. Mesmo os iletrados poderiam a partir da ilustração compreender a notícia e também facto importante, a realidade parecia mais próxima. Mas onde reside a novidade deste semanário?
O jornal é idealizado em função das imagens, são elas que orientam a escolha editorial.
L'Illustration, nº1202, 10/03/1866. Gravura a partir de fotografia Gustave Le Gray
Daguerriotipos e fotografias passam a ser a base dos gravadores. Édouard Charton, o editor, é rigoroso na seleção, são as imagens que devem seduzir o leitor e só publica o que considera imagens apelativas, mesmo que isso implique problemas na maquetagem. Os jornais concorrentes, utilizavam notícias vindas de fontes oficiais, como a agência Havas, e era a partir delas que escritores célebres escreviam as suas colunas de opinião, as ilustrações tinham um papel secundário e serviam de ornamento na maior parte dos casos. Outra das novidades do jornal foi o priveligiar as informações vindas dos seus próprios leitores e correspondentes. Cedo o jornal publica uma rúbrica, “Correspondência”. Os redactores respondiam às questões dos leitores, e verificaram que a maior parte vivia fora de Paris. Muitos deles propõem ideias de reportagem e de cobrir os acontecimentos locais, e o semanário utiliza-as como fonte principal das suas notícias.
L’Illustration, veio renovar completamente o meio jornalístico. Para dar uma ideia, La Presse utilizava 23 000 palavras por página, o L’Illustration 11 000, o texto era um elemento gráfico, que acompanhava as imagens. Impresso em duas folhas, frente e verso, as folhas eram depois dobradas em quatro, formando um jornal com 16 páginas. Para não perder a qualidade de impressão das gravuras as imagens eram colocadas num lado só, o que implicava que na dobragem das folhas as ilustrações ficavam nas páginas 1,4,5,8,9,12,13 e 16. Importante saber isto? Sim, toda a paginação era concebida em função das páginas ocupadas pelas imagens.
Para exemplificar a reportagem “Californie. San Francisco et Sacramento”
começava na página 7, para que seis gravuras, quatro delas feitas a partir de daguerriotipos, ocupassem a dupla página 8 e 9 e o texto terminava na 10. Caso fosse necessário era o texto que era encurtado. Uma outra curiosidade, se o texto era longo, as imagens não eram sacrificadas, o jornal informava então os leitores “La fin au prochain número”.

Hoje, os jornais como diz Porter são “cinzentos e chatos”e sofrem com a concorrência feroz da internet...É preciso, diz-nos Porter, “...perceber os pontos fortes e fracos de cada um dos suportes. A internet é muito boa para notícias rápidas, para actualizações,...mas os dois suportes são complementares,... e temos de explorar essa complementaridade...A fotografia, é um outro recurso que funciona melhor no papel. ...no entanto, temos de ter muito cuidado como usamos a cor: se usamos muita cor ou cores muito fortes, acabamos por ter um jornal demasiado popular”.
Ontem comprei o Público. No editorial lemos “Os jornais impressos enfrentam hoje o seu maior desafio desde que entraram nos hábitos dos cidadãos e revolucionaram a intervenção democrática, nos primórdios do século XIX.”mais à frente “ A generalização da banda larga pulverizou radicalmente os canais de distribuição da informação. O surgimento dos blogues alargou o espectro do debate público. A facilidade de colocar na rede textos, sons e imagens dessacralizou a função dos jornalistas e alterou irremediavelmente a superfície de contacto entre a informação e os seus destinatários...”.

A ideia do novo jornal redesenhado por Porter é “cada vez que viramos uma página devemos ter uma surpresa”.
Estas são algumas das surpresas...

Édouard Charton, foi génio, as imagens não eram utilizadas como ornamento, e o debate público, hoje nos blogues, era a essência do jornal.
Boa sorte para o Público.

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sábado, fevereiro 10, 2007

INGenuidades, Fotografia e Engenharia 1846-2006

Joan Fontcuberta, no seu livro Photography Crisis of History, pediu, a alguns especialistas na área da fotografia, as suas opiniões em relação a este tema. Na introdução, Revisiting The Histories of Photography, Fontcuberta escreve “the fact is that photography has arrived at the year 2000 beset by an apparent crisis of identity”, e apresenta oito questões sobre a crise porque passa a História da Fotografia para os convidados responderem.
Jorge Calado, não foi convidado, mas se o fosse INGenuidades responderia a todas as crises postas em aberto por Fontcuberta.
INGnuidades é uma das histórias possíveis da fotografia, como já em 2003, Pedras e Rochas em fotografia, exposição encomendada pela Fundação Eugénio de Almeida a Jorge Calado, o tinha sido.

Na presente exposição tudo foi cuidado ao pormenor: os sons que se fazem ouvir ao longo da sala que completam o que vemos, o uso de diferentes cores consoante as especialidades da engenharia, e por fim o jardim da Fundação.

Na Engenharia Hidráulica temos este azul e


esta vista para o jardim.




Entremos agora no mundo das engenharias.

Começemos com uma das engenharias mais antigas, a mineira. O meu olhar fixou-se na Pepita de ouro com 202 onças de Carleton Watkins (1829-1916).


A pepita de ouro de Watkins, leva-nos para uma aventura, que ainda hoje é das mais fascinantes da história do Oeste americano, a mítica corrida ao ouro no ano de 1848. Confirmada a existência deste precioso metal na região da Sierra Nevada na Califórnia, logo os jornais da época divulgavam a descoberta. Em Dezembro de 1848, no Philadelphia Sunday, lia-se a seguinte notícia “ Here is El Dorado, of which Ponce de Léon and his companions so vividly dreamed...”. Se a população da Califórnia, antes de 1848 se reduzia quase a mexicanos (c.12 000) e nativos (c. 20 000), os Yankee, entre soldados e colonizadores não eram mais de 2 000. Em 1850 ultrapassavam os 100 000. Chegar lá não era fácil, a Central Pacific Railroad, uma obra magnífica da engenharia, só terminaria em 1869. Chegavam de barco e atracavam na baía de S.Francisco. Era daí que os aventureiros partiam para o sopé da Sierra Nevada. Watkins entusiamado com a nova terra prometida, deixa Nova Iorque, onde vivia, e vai para a Califórnia. Em 1854, Watkins já se estabelecera como fotógrafo em S.Francisco. A cidade cresce com a corrida ao ouro, e cresce tal como as crianças a ser fotografada, por coincidência a fotografia foi inventada na precisa altura em que a Califórnia começava a ser colonizada. Se hoje Watkins, é mais conhecido pelas fotografias que tirou da cidade e do Yosemite Park,


Best View, Yosemite,1865,C.Watkins

S.Francisco c.1865, C. Watkins

Watkins também fotografou extensamente a região mineira da Sierra Nevada.

Mining in Boise c. 1860.C. Watkins

Sierra Nevada Mining, c.1860, C. Watkins

Eu não conhecia esta preciosa Pepita de ouro, aparentemente tão simples mas símbolo desta magnífica aventura que foi a colonização do Oeste Americano.

É graças à grande comercialização das suas fotografias, que hoje as podemos ver. No folheto, distribuido a quem visita a exposição lê-se: “O terramoto de São Francisco em 1906 foi a primeria grande catástrofe a ser extensivamente documentada pela fotografia, da terra e do ar: 80% da cidade destruída pelo tremor e fogo, ¾ da população sem abrigo”. Pode-se acrescentar, o terível terramoto de 1906, destruiu na totalidade os arquivos de Watkins.

E terminemos as minas com esta mais recente de Edward Burtynsky, Minas #22, mina de cobre Kennecott Bingham Valley no Utah em 1984.


E é Edward Burtynsky, que nos leva agora para a Engenharia Naval, para olharmos para estas duas fotografias a que deu o nome de Quebrando Navios, Chittagong Bangladesh 2000, a outra tirada em 2001. O trabalho de Burtynsky interessou-me particularmente, não o conhecia.



Ainda nos mares mas num local mais escurecido, porque as albuminas não gostam de luz, encontramos a fotografia de Robert Howlett(1832-1858), Isambard Kingdom Brunel, 1857, carte de visite. Fotografia largamente reproduzida nas Histórias da Fotografia, sempre em grande formato. Foi a primeira vez que vi um original e fiquei surpresa com esta minúscula carte de visite.



Beaumont Newhall, também a edita na sua History of Photography e escreve: Robert Howlett, Isambard Kingdom Brunel, builder of the steamship “Great Eastern”, Standing Against the Launching Chains, 1857. Albumen print. George Eastman House, Rochester, N.Y., Newhall não nos dá as dimensões.


Veio-me à memória o Musée Imaginaire de Malraux.

Passemos agora para o presente, e na Engenharia Civil olhemos para La Courneuve Implosion 8 June 2000, de Mathieu Pernot.


“O ciclo vital das engenharias – criação, destruição, reciclagem-.”Aqui olhamos para a destruição, o método de implosão, utilizado pela engenharia.
Mas a implosão não é só do edifício, é também a implosão dos sonhos que prometeram a estas famílias que foram para aí viver.

Le Scandale des mal-logés. La Courneuve, 1952, Jean-Philippe Charbonnier

Os arquitectos queriam um mundo geométrico, perfeito...

Untitled (Reprodução de postais, da série “o melhor dos mundos” Anos 1950/2006.

Mathieu Pernot

Neste momento vou perguntar ao leitor o seguinte: Sabe localizar estas fotografias de André Kertész na exposição? é evidente que só pode responder quem já a viu.

Arm and Ventilator, New York,1937, André Kertész
Clayton "Peg Leg" Bates, Paris, 1929, André Kertész

Será na Engenharia mecânica?
No Corpo Prolongado?


Secção do Corpo Prolongado na exposição

Não, Kertész, não está na exposição e não é nenhuma crítica à sua ausência, antes é percebermos a tarefa àrdua do comissário, na selecção das fotografias a integrar na exposição.

Espantosa a organização desta exposição, quem esperaria ver Robert Frank na Engenharia Eléctrica?

Um monumento à Electricidade + Fotografia, 1976, Robert Frank

Do lado direito desta fotografia de Frank, fica “Árvore a Arder” de Dean Sewell, única fotografia da exposição com a descrição mais longa: “A combustão de uma árvore aparentemente morta (que suga o ar, causando um vácuo) espirrando faúlhas e brasas incandescentes, depois dos fogos que assolaram a capital da Austrália, Canberra a 18 de Janeiro de 2003. Ao longe, vê-se o engarrafamento de trânsito, com os condutores a procurarem escapar aos detritos em brasa que voavam por todo o lado”.

Não vou mostrar a fotografia, antes criar a vontade de quem ainda não foi à exposição de a ir ver.

Exposição na Fundação Calouste Gulbenkian, de 9 de Fevereiro a 29 de Abril 2007
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sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Patti Smith

Patti Smith nasce em Chicago em 1946, mas cedo vai viver para Woodsburry, New Jersey com os seus pais. Cidade rural, onde nada acontece, Patti chega a Nova Iorque em 1967, onde encontra Bob Dylan, que também deixara Hibbing, uma cidade perdida do Minessota. É a geração que deixa o meio rural pela cidade. Patti conhece Robert Mapplethorpe (1946-1989), na altura estudante de arte, com quem vai viver.

Patti e Robert, Coney Island, foto Michel Esteban, 1969
Patti e Robert, foto Malanga, 1969
Patti e Robert, foto Norman Seef, 1969

Patti escreve poesia, ama a poesia de Rimbaud, e canta em bandas.
1974

Em 1975 grava o seu primeiro álbum Horses, produzido por John Cale. Música, New Wave, derivada do punk rock da década de 70.
A fotografia da capa é de Mapplethorpe, é a primeira de muitas outras capas.
Mas Mapplethorpe faz esta série de estudos para Horses:
Série Horses, #1 #2 #3 #4 e #5, Robert Mapplethorpe
1975, Horses
As outras capas que Mapplethorpe fotografou:
Wave 1979,
1988, Dream of Life
1988, People Have The Power

No último número da revista Aperture, é a vez de Patti mostrar as suas fotografias. Usa uma Polaroid Land 250 que leva sempre consigo quando anda em digressão, Mapplethorpe, antes da máquina de grande formato, iniciara-se na fotografia com uma Polaroid.
Patti Smith, c 1960

Esta é uma fotografia antiga, feita nos anos 60, quando Mapplethorpe e ela, depois de regressar de uma viagem a Paris, vão viver no Chelsea Hotel.

“...a maior parte das minhas fotografias desta década perderam-se. Encontrei esta por acaso, no meio de um livro velho. É uma fotografia de Robert Mapplethorpe no Chelsea Hotel. Este era um gesto típico de Robert, mão no bolso enquanto escrutinava o seu trabalho. Ainda me lembro de a tirar.” Patti Smith

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