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segunda-feira, fevereiro 04, 2008

O mistério das malas de Robert Capa

Robert Capa em Espanha, 1936, fotografia atribuída a Gerda Taro
Há uns anos em Paris, o tempo de espera para ver a exposição “Matisse/Picasso” era de duas horas, não muito longe do Grand Palais, na Biblioteca Nacional, duas horas era o tempo para quem queria ver a exposição “Robert Capa”. Capa o fotógrafo, Picasso o pintor, hoje internacionalmente conhecidos, deixaram para a história o símbolo do horror da guerra civil espanhola. Capa com “The Falling soldier”, tirada em 1936 perto de Córdova,
Robert Capa, "The Falling soldier", Cerro Muriano, Córdova, 5 de Setembro de 1936
Picasso com a sua “Guernica” pintada no ano de 1937.
Picasso, Guernica, 1937

Em Julho de 1936 uma sangrenta guerra civil eclodia em Espanha. Republicanos e Nacionalistas num combate violento dividem o país, e no seio de muitas famílias, republicanos e nacionalistas olham-se não como parentes mas com ódio de morte.

Na semana que passou, o New York Times e dois periódicos espanhois noticiavam a recuperação, pela insistência da International Center of Photography (veja aqui fotografias de uma recente exposição), de três malas
com milhares de negativos da guerra civil espanhola atribuídos a Robert Capa, Gerda Taro e algumas de David Seymour.

Não é a primeira vez que malas com negativos e fotografias de Capa são alvo de notícia e sempre que se descobrem misteriosas malas com fotografias e negativos atribuídos a Capa, os jornais deliciam-se em duvidar sobre a veracidade da fotografia “The Falling soldier”. A notícia agora divulgada no New York Times repete a história: “será que entre estes milhares de negativos estará o negativo de “The Falling soldier”? Será que se pode pôr um ponto final nesta história?” Mas acrescentam agora uma outra dúvida, “será que “The Falling soldier” seja de Taro e não de Capa?” Especulações que excitam muita gente.

O húngaro e judeu, Robert Capa, deixa Paris quando as tropas da Wehrmacht se aproximam da cidade. Para trás deixa o seu estúdio mas, entretanto, enche também uma mala com negativos, quase todos da guerra civil espanhola, e entrega-a a um amigo, seu conterrâneo e também judeu. O amigo, hoje a viver sob o anonimato no México, vai para Bordéus à espera de um transatlântico mas, com receio de também ser apanhado, entrega a mala a um Chileno, também amigo de Capa, que promete guardá-la num local seguro em Nice ou Marselha. Esta recambolesca história li-a há muitos anos, 1983, na revista American Photographer. A revista voltava à história das malas de Capa no ano em que a revista francesa Photo publicava várias fotografias suas da guerra civil espanhola que um fotógrafo da Magnum, Bernard Matussiére,
Fotografia publicada no American Photography, Outubro 1983
encontrara no sotão da sua casa. A primeira página do artigo da Photo era ilustrada com esta fotografia fantástica de Capa tirada em Barcelona, cidade que no final da guerra sofreria terríveis raids aéreos:
Robert Capa, Barcelona, Agosto 1936
Capa fotografou Barcelona ainda ocupada pelos republicanos
Robert Capa, Barcelona, 13 de Janeiro, 1939
Robert Capa, Barcelona, Janeiro, 1939
_ cairia nas mãos dos nacionalistas pouco tempo depois, a 26 de Janeiro de 1939.
Será que a mala afinal seguiu no transatlântico para o México, como agora parece comprovar a história divulgada pelo New York Times?

Em 1983 não era contudo a primeira vez que as malas de Capa vinham à baila, pois nos finais dos anos 70, uma mala com 97 fotografias de Capa, da guerra civil espanhola era encontrada no arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Suécia. A mala pertencera ao ex-Primeiro Ministro do governo Republicano, Juan Negrín, que substituira Largo Caballero em Maio de 1937, quando este se demitiu recusando a alinhar com os comunistas. Hoje estas 97 fotografias pertencem ao Arquivo Histórico Nacional de Salamanca.
Robert Capa, Farmácia Globo, Madrid, 1937, do Arquivo Histórico Nacional de Salamanca

Se dias depois da tomada de Barcelona as tropas de Franco chegavam à fronteira francesa, levando o Presidente Azaña e o General Vicente Rojo a desistir, Negrín julgou possível prolongar a resistência e, em 4 de Março, Madrid era ainda alvo de combates violentes entre as tropas do Coronel Cascado e as tropas de Negrín.
Robert Capa, Madrid, Novembro-Dezembro 1936
A 28 de Março de 1939, Madrid é tomada pelos nacionalistas e, dois dias depois, a 1 de Abril, Franco proclama a vitória. A guerra acabava.
Capa terminou a reportagem da guerra civil a fotografar os exilados no campo de refugiados perto de Perpignan.
Robert Capa, Argelès-sur-Mer, França, Março 1939
Robert Capa, Argelès-sur-mer, França, Março, 1939

Foi a revista francesa “VU”, dirigida por Lucien Vogel, que a 23 de Setembro de 1936, publicava pela primeira vez “The Falling soldier”.
Passados uns meses, a 12 de Julho de 1937, é a vez da revista Life publicar a mesma fotografia. E enquanto durou, jornais e revistas de todo o mundo ilustravam a guerra com as fotografias de Capa. Em Dezembro de 1938 a prestigiada revista inglesa Picture Post dedicava 11 páginas com fotografias de Capa e proclamava-o “The greatest War Photographer in the world”.
Durante anos ninguém duvidou se a fotografia do soldado republicano a cair, atingido por uma bala, era ou não encenada. Mas a inveja é terrível e na década de 70, jornalistas ingleses baseados em informações de um fotojornalista do London Daily Express, O’Dowd Gallagher, que também cobrira a guerra civil, vinham dizer que a fotografia de Capa era encenada. Em 1985, no Festival Internacional de Fotografia de Arles, circulava a notícia que o soldado de “The Falling soldier”, estava vivo e residia na Venuzuela. Richard Whelan, que em 1985 publicava a biografia de Capa, tenta repor a verdade. Durante anos investiga a vida do fotógrafo e concluiu que o soldado da célebre fotografia era Frederico Borell García, militante da Confederación Nacional del trabajo, CNT, uma poderosa organização anarquista.
Robert Capa, Untitled, Cerro Muriano, Córdova, 5 de Setembro, 1936
A família comprova que Frederico Garcia morrera em combate em Cerro Muriano no dia 5 de Setembro de 1936. Os negativos dessa reportagem são enviados por Capa para o seu assistente, Csiki Weiss, que confirma a Whelan que “The Falling soldier” seguia no conjunto de outros negativos desse mesmo dia.
Robert Capa, sequência, Cerro Muriano, Córdova, 5 de Setembro, 1936
“Era normal nesse tempo cortarmos os negativos”, diz Weiss. Em relação a Gallagher, Whelan concluiu que este só conhecera Capa anos mais tarde, já no final da guerra. Mas para refutar definitivamente tão absurda sugestão, Whelan pede a um perito em homicídios, Robert L. Franks, para analisar a fotografia. Franks concluiu que seria impossível alguém encenar tal fotografia, pois a mão esquerda, que mal se vê debaixo da perna, mostra que a mão está praticamente fechada, “se Garcia estivesse a encenar, a mão estaria aberta para amparar a queda”, diz Franks.

As conclusões de Whelan, que morreu no ano passado, parecem não convencer os jornalistas que insistem mais uma vez na dúvida.

Foi Robert Capa que teve a ideia de criar a agência Magnum, e com mais quatro colegas, em 1946, surgia a ainda hoje mítica agência. Num 4º andar, no nº 125 da rue du Faubourg Saint-Honoré, o local do escritório em Paris. Mas era no Bistrot da esquina, dessa mesma rua, que Capa preferia reunir os membros, onde com eles planeava as viagens. Viajar, cobrir os acontecimentos do mundo era o seu projecto. “If your pictures aren’t good enough, you’re not close enough”, a máxima de Capa. Para Capa, fazer reportagens para a Life aborreciam-no, pois esse homem, enérgico e cheio de vitalidade, vivia para mostrar ao mundo as guerras que o assolavam. Era o seu modo de vida. A 25 de Maio 1954 morreria, na Indochina, desfeito ao pisar inadvertidamente uma mina. Enquanto viveu, nunca recuperou o desgosto da morte da sua amada, Gerda Taro, que morreria na guerra civil espanhola. Disse mais tarde que fotografara a guerra nas trincheiras de Cerro Muriano. Negaria Capa que a fotografia “The Falling soldier” era de Gerda? E será que Capa, o fotógrafo que morreria pela guerra, capaz de encenar uma fotografia de guerra?. Não tenho dúvidas em dizer que Frederico Garcia morreu e que Capa, na trincheira, tirava sem o saber, o momento crucial da morte desse militante.

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quinta-feira, janeiro 24, 2008

Davos, 2008

Muitos são os que sobem nestes dias os Alpes Suiços para chegarem à cidade de Davos, que desde 1971 acolhe o World Economic Forum. Mas o que faz subir e reunir todos os anos esta elite de gente em Davos?
Andreas Gursky, Engadin II, 2006
Na agenda os problemas do mundo actual e nada melhor que o ar puro da montanha para se delinearem estratégias onde todos trocam conhecimentos e opiniões. Não depende o nosso futuro das estratégias que hoje forem definidas?

Este ano a recente correção dos mercados bolsistas, que levou Ben Bernanke há dois dias a baixar em 75 pontos base as taxas de juro na América, é o centro das atenções.
Andreas Gursky, Chicago Board of Trade II, 1999
Mas será que em Davos se adiam os problemas de longo prazo, escassez de água, mudanças climáticas, energias alternativas, proliferação de armas nucleares para se resolver agora os problemas de curto prazo? E serão os problemas financeiros resolvidos?

Os grandes das finanças apanham o avião e atravessam o Atlântico,
Jeffrey Milstein, Quantas Boeing 747-400, 2006
vão tentar defender o modelo financeiro actual, e levam na agenda reuniões informais com os políticos, em épocas de crise, todos procuram a ajuda de todos...

Há quem deseje alterar o actual modelo. O “super-boom” ficou fora de controlo com os novos produtos financeiros cada vez mais sofisticados. Ás autoridades supervisoras, que já não conseguem calcular os riscos, só lhes resta acreditar na gestão e no modelo dos bancos.

George Soros já veio dizer que a bolha que agora rebentou no mercado imobiliário é diferente de todas as outras dos últimos 60 anos, pois é a primeira vez que outros Estados financiam Wall Street. Para ele “it was a shocking abdication of responsibility”, e o dólar arrisca-se a deixar de ser a reserva internacional.

Um dos maiores bancos da América, o Citigroup, que precisou de uma injecção de novo capital na ordem dos $22bn, vê com bons olhos a ajuda de investidores como Kuwait Investment Authority.
Andreas Gursky, Kuwait Stock Exchange, 2007
Mas se a entrada de dinheiro fresco permite equilibrar os balanços, não ficará agora a banca refém de influências políticas no futuro?
Andreas Gursky, Bahrain I, 2005
Dos grandes investidores que constroem hotéis de sete estrelas?
Robert Polidori, On the Burj Al Arab, Dubai
Robert Polidori, On the Burj Al Arab, Dubai
Será que a recessão americana afectará o desenvolvimento dos mercados emergentes? A questão levantada por muitos em Davos.

China, Índia e todos os países produtores de petróleo sofreram com a recessão vinda do outro lado do Atlântico? Haverá recessão global? Ou será o início de um novo realinhamento económico onde a América deixará de ser a locomotiva?

Olhando para a história não é a primeira vez que esta questão se coloca. Quem não se lembra nos anos 70, da invasão de Hondas, Toyotas...a circularem nas estradas americanas? Julgou-se que o Japão tecnológico suplantaria a economia americana e receou-se o pior. Mas o boom no Japão levou à bancarrota e só agora o Japão parece conseguir sair da recessão.

Olhemos então para a China, o país que de dia para dia surpreende todos nós Ocidentais.
Sze Tsung Leong, Chaoyang District, Beijing, 2002

O crescimento estonteante das cidades chinesas tem sido tema recorrente dos fotógrafos, mas a realidade também lhes escapa.
Andreas Gursky, 2002
Na China a maioria destes prédios só tem dois elevadores, o tempo de espera para subir/descer é de 40 minutos. Construidos na sua maioria só com o saneamento básico, é da responsabilidade de quem compra um apartamento, instalar o que falta, electricidade, gás... Xangai que muda todos os dias, acolhe por ano aproximadamente 4 milhões de habitantes que deixam as aldeias à procura de uma vida melhor. A taxa de desemprego na cidade anda na ordem dos 3%, massa de gente que é absorvida na construção e nas novas indústrias. O discurso oficial na China é “ whatever else we have done, we have brought hundreds of millions of people out of poverty”. Imaginemos, Nova Iorque, Paris, Londres, receber num ano o mesmo número de habitantes...Em Shenzen,
Peter Bialobrzeski, Shenzen, 2001
cidade que nos anos 80 ainda era uma pequena cidade piscatória junto ao delta do rio das pérolas serve hoje de experiência piloto do Estado que a isentou de impostos. O investimento estrangeiro em Shenzhen não pára. Quem vive em Shenzhen vive única e exclusivamente para o trabalho. Visitar a FoxConn em Shenzhen, a maior empresa exportadora da China, é visitar todas as outras, o modelo é o mesmo. Com um total de 250.000 operários nas suas linhas de montagem, trabalham 12 horas por dia, 6 dias por semana, por vezes 7, e o seu desempenho é controlado no final de cada mês. Dormem nos dormitórios da fábrica
Edward Burtynsky, Manufacturing #4 Factory Worker Dormitory, Dougquan, Guangdong Province, China, 2004
e comem na cantina da fábrica,
Edward Burtynsky, Manufacturing #11, Youngor Textiles, Ningo, Zhejiang Province, China, 2005
ganham o correspondente a $120 por mês, que poupam quase na totalidade. Saem da linha de montagem e pouco mais fazem do que dormir, e ao fim de cinco anos partem novamente para as aldeias de onde vieram com um pé de meia, não aguentam muito mais... Mas a FoxConn na lista da Fortune Global, figura num modesto 206 lugar entre as maiores empresas do mundo.
E no final destas imensas cadeias de produção que mais valias ficam na China? Os países que detêm as marcas, onde parte da produção é feita na China, estão nos extremos do processo, onde verdadeiramente ficam as mais valias. Na China ficam apenas 3 a 4 % dos ganhos do produto total, distribuido pelos donos das fábricas e pelos milhares de operários das linhas de montagem.
Pode-se comparar o milagre da China ao do Japão nos idos anos 70?
George Soros, que em 1992 ganhou $1bn ao especular na desvalorização da libra, e levou o Banco de Inglaterra quase à falência, vem agora em Davos alertar para a recessão americana, e para um novo realinhamento económico onde “China, India and some of the oil producing countries are in a very strong countertrend. So, the current financial crisis is less likely to cause a global recession than a radical realignment of the global economy, with a relative decline of the US and the rise of China and other countries in the developing World”. Será agora a vez de Soros experimentar o dólar?

Mas em Davos a agenda é vasta...poluição, aumento do custo dos produtos agrícolas, problemas geopolíticos como o Irão nuclear...fazem parte dos debates.
Mitch Epstein, Gavin Coal Power Plant, Cheshire, Ohio, 2003

Com o crescimento galopante rumo a uma sociedade de consumo ao estilo ocidental, a China assusta-nos. A poluição é hoje um dos maiores perigos que a China enfrenta, é o preço a pagar pela riqueza. Para se ter uma ideia da gravidade, se a China se aproximasse dos níveis da América no que respeita ao número de automóveis por família, cerca de 600 milhões de carros circulariam nas estradas chinesas, o que corresponde a mais do que o total de veículos hoje existentes no planeta.
Peter Bialobrzeski, Shangai, 2001
Robert Polidori, On Shangai
Afinal, não tem os chineses direito ao mesmo nível de vida? Ou será que todos nós é que temos de mudar?

Mudar? O mundo está a mudar, e agora em vez dos produtos industriais olha-se para a produção do açucar, milho, trigo...volta-se às origens, à terra,...
Frank Gohlke, Mississippi, 1986
Alessandra Sangrinetti, da série "on the sixth day", 1996-2004
Mudar? Mas afinal o mundo parece não mudar, e a ameaça nuclear, que ameaçou o dia a dia da geração de 60,
Yousuf Karsh, J.Robert Oppenheimer, 1956
Los Alamos, National Laboratory Photo, Bomba Atómica, 1957
está novamente na ribalta com o Irão nuclear, e já agora porque não ler aqui, um excelente post, sobre o assunto, escrito por alguém dessa mesma geração de 60.

Hoje vemos o mundo assim:
Yannick Demmerle, da série "Les nuits Étranges", 2004

mas não queriamos todos nós o ver antes assim:
Wout Berger, Ruigoord 2, 2002

ou preferimos o mundo ficcional do Dubai?
Andreas Gursky, Dubai World II, 2007

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sexta-feira, janeiro 18, 2008

Fotojornalismo em crise?

Ontem o P2 do jornal Público recordava o dia 17 de Janeiro de 1991, dia em que iniciou a chamada guerra do Golfo. O jornal ilustrava o pequeno texto com esta grande imagem:
Jornal Público, dia 17 de Janeiro, 2008

Na madrugada desse dia, uma frota de aviões dos EUA, Inglaterra, França, Arábia Saudita e Kuwait seguiram em direcção ao Iraque. Os ataques aéreos, feitos com “bombas inteligentes”, de uma precisão nunca antes vista marcavam o início de uma ofensiva que se designou por Operação Tempestade no Deserto.
Todos nós em casa em frente aos nossos televisores fomos surpreendidos pelas imagens que a CNN difundiu em directo dessa guerra, e ao longo dos dias habituámo-nos às imagens fornecidas via satélite que invadiam os nossos ecrãs.
De tons esverdeados, mais pareciam imagens de jogos de uma guerra virtual.
Para a elite militar americana o impacto que as fotografias da guerra do Vietname causaram na opinião pública estavam ainda bem presentes e o Vietname, a última guerra a ser fotografada. Na guerra do Golfo as instâncias militares americanas evitaram ao máximo o testemunho directo dos jornalistas e fotógrafos no terreno, e divulgaram imagens que mais se assemelhavam a uma guerra cirúrgica, as imagens verdes que hoje retemos na memória e que o Público tão bem reproduz. Estará o fotojornalismo em crise?
Aos fotógrafos resta agora o depois, como fez Sophie Ristelhueber que em 92 vai ao Kuwait registar as marcas dos objectos pessoais e de destruição bélica deixados no terreno pela artilharia americana.
Sophie Ristelhueber, da série Fait, 1992
Sophie Ristelhuber, da série Fait, 1992
Sophie Ristelhueber, da série Fait, 1992

Thomas Ruff, prefere, como o fez na sua série Nacht de 92/93, ironizar a crise do referente, pois já nem precisa de “ter estado lá”.
Thomas Ruff, da série Natcht 10, 1992
Thomas Ruff, da série Natch 14, 1993

Mas se as guerras já não podem ser fotografadas, as manifestações públicas correm também esse risco. Vejamos o que se passou com a revolta estudantil de Março de 2006 em França. Em 10 de Março desse ano, o site do jornal “Libération” anunciava esta notícia breve: “Manifs, AG...Envoyez-nous vos photos témoignages. Elles seront sélectionnées para la rédaction, publiés au fur et à mesure sur Libération.fr”, mas esta solicitação era seguida de um texto bastante mais longo, que enunciava as condições da publicação: “Vous accordez à Libération le droit de publier gratuitement sur tous les supports de son choix les images que vous lui avez envoyées (...) Vous certifiez bien être l’auteur de ces image et posséder les autorisations nécessaires de toutes les personnes photographiées...”, se nos dá vontade de rir, o jornal cumpria com a lei que obriga uma autorização prévia do fotografado, numa manifestação... Poucas foram as imagens enviadas, porque também hoje, a internet substitui tais disparates com novas plataformas de informação como o Flickr, onde quase minuto a minuto eram divulgadas as imagens dos estudantes revoltosos.
Ocupação da Sorbonne, 10-11 de Março 2006, fotografias divulgadas em Flickr
Manifestação 28 Março, 2006, imagem divulgada em Flickr
Manifestação em Paris, 18 Março 2006, imagem divulgada em Flickr
Mas se hoje estas plataformas são o meio privilegiado de circulação de informação, o curioso é que hoje a maioria das imagens que a blogosfera utiliza para ilustrar os seus posts, são retiradas dos jornais e Sócrates, Cavaco Silva,...fazem as delícias de muitos blogers.

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sábado, janeiro 12, 2008

Diane Arbus

Há dias li no Público que o espólio de Diane Arbus (1923-1971) foi oferecido, pelas duas filhas, ao Metropolitan Museum de Nova Iorque (Met). Doon e Amy, as responsáveis desde a morte de sua mãe pela gestão, elegeram o Met como destino final, e junto com as obras fotográficas todo um conjunto de documentos hagiográficos, que segundo as herdeiras, “haverá habitações repletas de material, entre fotos, papéis pessoais, cartas, livros, diários...”. Pasmo, não pela doação, tão natural nos americanos, mas pela mudança de atitude de Doon, a filha mais velha. Durante anos, Doon Arbus, preservou a obra da mãe da “voracidade das teorias e interpretações”. Um só impressor, Neil Selkirk, podia produzir as provas, os direitos de reprodução constantemente negados, e até o seu suicídio, que atraiu multidões às salas do MoMA, com a exposição póstuma que John Szarkowski, (1925-2007) lhe dedicou em 1972, a exposição mais visitada depois de “The Family of Man”, era desencorajado. Doon queria e bem que a obra da mãe ficasse incólume ao prazer que as multidões sentem em conhecer a vida privada de cada um. Lembrava-se certamente da reacção ambígua da mãe, quando em 1967, Szarkowski a escolheu com Garry Winogrand e Lee Friedlander, para a exposição “ New Documents”. A ideia de mostrar o seu trabalho arrepiava-a e destestava o elogio, “o elogio é muito perturbador”, afirmou ela uma vez. Mas se o elogio a perturbava, mostrar o seu trabalho era um risco, e Diane tinha razão, a crítica ignorou a sua obra e “concentrou-se nas personalidades e tiques dos retratados”. Em 2004, uma grande exposição “Diane Arbus Revelations”, organizada pelo San Francisco Museum of Modern Art, circulou pela Europa (Alemanha e Inglaterra), e várias cidades dos Estados Unidos, (Los Angeles, Houston, Nova Iorque e Minneapolis). Lembro-me de ver a exposição anunciada na programação de 2005 de Serralves, erro do jornal? mas por cá é que não passou. Em Nova Iorque, foi o Metropolitan que a recebeu e como lembra o Público “o Met foi uma das instituições que mais visibilidade atribuiu à artista, dedicando-lhe várias exposições, com destaque para uma grande retrospectiva há cerca de dois anos”. O jornal lembra bem o destaque, pois se a exposição, como revelava bem o título era uma revelação também da sua vida íntima, o número e profundidade dos golpes com que cortou os pulsos, o aparelho anticoncepcional que usava e por aí fora, quando chegou ao Met, os retratados, como escreveu Jorge Calado “saíram do armário ou saltaram do papel fotográfico. As gémeas idênticas de Roselle, N.J., continuam a vestir-se de igual; são agora um par de ruivas disponíveis para serem fotografadas ao lado da foto que as imortalizou em 1967.
Diane Arbus, Identical twins, Roselle, N.J. 1967

Lorna Anton, a empregada “topless” do campo de nudistas em New Jersey (1963), dá entrevistas;
Diane Arbus, A young woman at a Nudist Camp, N.J., 1963

(...) e vários cinquentões apresentaram-se como sendo o rapazinho apanhado com uma granada de mão em 1962, no Central Park”,
Diane Arbus, Child with a toy hand grnade in Central Park, N.Y.C, 1962

assistia-se a um repetir, da “Migrant Mother”, 1936, de Dorothea Lange. Há aproximadamente um ano, anunciei neste blog a estreia, lá fora, do filme “Fur”, um retrato da sua vida, escrevia a crítica. Depois de o ver, remeti-me ao silêncio, que o génio de Arbus merece, pois para mim foi mais um duro golpe na vida de Arbus.

Diane Arbus começou com o marido Allen por fotografar para as revistas de moda. Em 2004, numa entrevista, Szarkowski, lembra-se do seu primeiro encontro: “Ela apareceu no MoMA, 1962, com um portefólio cheio de fotografias que eu já conhecia da Harper’s Bazaar. Não fiquei impressionado. Mas no meio daquele monte de fotografias de 35 mm, uma de formato quadrado destoava e despertou-me a atenção, chamava-se “Teenage Ballroom Dancing Champions”.
Diane Arbus, The Junior Interstate Ballroom Dance Champions, Yonkers, N.Y, 1962

Arbus seguia o conselho de Lisette Model, “quanto mais específica for uma fotografia, mais universal o resultado”. Arbus deixa a fotografia de moda e foca a sua câmara para as franjas da sociedade, “acredito realmente que há coisas que ninguém veria se eu não as fotografasse”. Joel Meyerowitz, que à época, nos idos anos 60, fotografava nas ruas de Nova Iorque, encontra-a várias vezes, e dela recorda-se assim: “Diane was sublime, stealthy, a mystery. She was weird and inwardly focused: she was like a wraith. (...) She was secretive and had long silences, though when she spoke, she was so eloquent that you were mesmerized”.
Arbus interessava-se genuinamente por quem fotografava, e é esse interesse genuíno que a distingue,
Diane Arbus, A young Brooklyn family going for a Sunday outing, N.Y.C. 1966
Diane Arbus, Mexican dwarf in his hotel room in N.Y.C. 1970

“you know, if you look at her pictures, the one thing you don’t see is resistance” lembra ainda Meyerowitz.
Agora é esperar para ver. Eu, deixo ao leitor este retrato rodeada de outros tantos retratos, seus e de outros, como ela uma vez disse: “I like to put things up around my bed all the time, pictures of mine that I like and other things and I change it every month or so”.

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