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quinta-feira, julho 31, 2008

Estúdio Mário Novais

Há dias li num jornal que a Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian passava a disponibilizar na Internet, através do Flickr, parte das fotografias da sua colecção de álbuns fotográficos - entre eles a colecção do Estúdio Novais.

Estúdio Mário Novais, Lisboa, Fotografia sem data, ACP

A colecção Novais, foi adquirida na sua totalidade pela Fundação em 1985. Como refere Luis Pavão, responsável pelo tratamento e arquivo da colecção, esta chegou ao Arquivo de Arte da Fundação, e aí permaneceu durante dois anos, tendo sido abertas apenas algumas caixas com o intuito de inspecção. Nessas inspecções detectou-se a presença de negativos em nitrato de celulose, material altamente inflamável. Conscientes então do perigo que esta quantidade de material fechado numa sala sem climatização poderia causar, levaram a Fundação, no início de 1990, a por em marcha todo um processo de tratamento. A digitalização da colecção, que agora podemos consultar via computador, foi logo pensada de início, e se à época o modo digital era quase uma ficção, hoje é o sistema adoptado e vulgarizado nos arquivos. O Estado português, que nos espreme com impostos, bem podia olhar para este exemplo e fazer o mesmo às colecções que guarda a sete chaves.

Mário Novais, (1899-1967), no nº 115 da Avenida da Liberdade, abriria, em 1933, o seu estúdio a que chamou Estúdio Novais. Quando morre, o estúdio passa para os herdeiros que o cedem, com todo o seu espólio, aos dois colaboradores Abílio Barata e Mário Soares que prolongam a actividade por mais uns anos. Em 1982, a venda do espólio fotográfico, surge como solução para os dois colaboradores, que entretanto tiveram que libertar o andar por uma acção de despejo do senhorio. Várias instituições mostraram-se interessadas, entre elas a Fundação Paul Getty de Los Angeles. Deixar que a riqueza patrimonial deste espólio, saísse do país, seria uma perca lamentável, mas felizmente a Fundação Gulbenkian acabou por comprar toda a colecção.

A colecção do estúdio abrange várias décadas (1933-1982) durante as quais fez diversos trabalhos de encomenda quer para o Estado, como a cobertura da famosa Exposição do Mundo Português (1940), em que o escudo e as quinas nacionais, que vemos nesta fotografia,

Mário Novais, Exposição do Mundo Português,Lisboa,1940

nos lembram a marca de fósforos Pátria, caixas sempre presentes nas prateleiras de pedra dos fogões das cozinhas portuguesas, aos institucionais particulares, como o trabalho que executou para o Automóvel Clube Português, onde o icónico VW Carocha, o carro mais popular a seguir à guerra, percorria as avenidas dos novos bairros de Lisboa.

Estúdio Mário Novais, Lisboa, ACP,Fotografia sem data.

Á época, o regime conservador do Estado Novo, presidido por Salazar, materializaria pela mão do Engenheiro Duarte Pacheco, ministro das obras públicas, um novo plano de urbanização para Lisboa, em franco crescimento populacional. O infatigável ministro, planeava e dirigia a construção de liceus,

Estúdio Mário Novais, Liceu Pedro Nunes, Lisboa, Sala de Aula. Fotografia sem data.

Estúdio Mário Novais, Liceu Pedro Nunes, Lisboa, Sala de Ciências Naturais. Fotografia sem data

gares marítimas,

Mário Novais, Gare Marítima, Painel de Almada Negreiros,data aproximada 1943-45

Mário Novais, Gare Marítima, Painel de Almada Negreiros,data aproximada 1943-45

aeroporto, parque florestal de Monsanto, estádio, igrejas,

Estúdio Mário Novais, Igreja de Nossa Senhora de Fátima, Lisboa, Arquitecto P.Pardal Monteiro

bairros,

Estúdio Mário Novais,Lisboa, Fotografia sem data

Instituições de Ensino Superior,

Estúdio Mário Novais, Instituto Superior Técnico, Lisboa

Mário Novais, Instituto Superior Técnico, Lisboa, data aproximada 1936-37

pontes, cinemas…

Estúdio Mário Novais, Cinema S.Jorge, Lisboa, Balcão. Inaugurado em 1950 de acordo com o projecto do arquitecto Fernando Silva

A Praça do Areeiro, riscada pelo arquitecto Cristino da Silva em 1938, tornou-se o símbolo da nova praça do regime. Exclusivamente habitacional, adoptou um severo jogo simétrico de arcarias de pedra, andares de sacada e peitoril, onde no telhado dominavam poderosos torreões.

Estúdio Mário Novais, Lisboa, Fotografia sem data

O carocha, o carro para o povo, tão económico quanto eficiente,

Estúdio Mário Novais, Lisboa, Fotografia sem data

circulava nestas avenidas rectas, sempre o primórdio da linha recta - o estilo em voga, ladeadas de uma arquitectura regrada, vertical e altaneira.

Estúdio Mário Novais, Lisboa, Fotografia sem data

Mas o estúdio, que vivia de trabalhos comerciais e encomendas, soube ser inovador. Se estas fotografias tiradas à noite na Avenida Almirante Reis, surpreendem,

Estúdio Mário Novais, Av Almirante Reis:vistas nocturnas, Lisboa, Fotografia sem data

Estúdio Mário Novais, Av Almirante Reis:vistas nocturnas, Lisboa, Fotografia sem data

mas lembram o “Paris de Nuit" (1933) de Brassäi, outras, como este teatro,

Estúdio Mário Novais, Teatro Politiema, Lisboa, Sala de espectáculos, fotografia sem data

lembram os fotógrafos da actualidade.

Hiroshi Sugimoto, "Theaters", 1978

Bem haja a Fundação Calouste Gulbenkian.


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sábado, junho 07, 2008

"Lisboa e Tejo e Tudo..."

Sempre que um post já vai longo, mas ainda restam fotografias que quero mostrar, digo ao leitor que continuo no próximo, e hoje não falto à promessa com os contrastes dessa “Lisboa e Tejo e Tudo…”, como cantou Fernando Pessoa.

António Sena, no seu livro, “História da imagem fotográfica em Portugal – 1839-1997”, recorda assim os anos da sua galeria: “Em 1982 é formada a associação e galeria Ether/Vale Tudo Menos Tirar Olhos (1982-1996), sendo fundadores Leonor Colaço, Luis Afonso, Madalena Lello, António Júlio Aroeira, António Sena, José Soudo e Alfredo Pinto, exclusivamente dedicada à fotografia e completamente desligada de qualquer filiação em anteriores Associações Fotográficas. O objectivo da Ether era colmatar as resistências e dificuldades da divulgação da fotografia portuguesa…”. António Sena, o impulsionador do projecto, abria a 15 de Abril desse ano, as portas da galeria com a exposição “Lisboa e Tejo e Tudo” de Victor Palla/Costa Martins.
Madalena Lello, Abril, 1982, Exposição "Lisboa e Tejo e Tudo"
No nº 25 da Rua Rodrigo da Fonseca, a fachada fora transformada para acolher o espaço da galeria. Um longo e vertical tubo de queda, com todo o seu volume saliente de forma cilíndrica, foi pintado de amarelo. Na parede estreita por cima da porta uma pintura em faixas de cinzento simulava a transposição das intensidades maiores ou menores da luz – o princípio base da fotografia a preto e branco. A fachada dava nas vistas, e quem por ali passava não resistia a parar. E foi o que aconteceu a um fiscal da Câmara que por ali passando em rotina de serviço, deparou com a obra feita de um dia para o outro. Teve que fazer um ofício, mas não resistiu a deixar um bilhete algo inesperado: “Isto foi feito ilegalmente, mas está lindo. Passem por lá para ver se resolvemos a contento.”, e resolveu-se, porque o fiscal tinha olhos.

Ether, designava a natureza da luz – algo volátil e etéreo nos finais do século XIX, quando ainda não se conhecia exactamente a sua composição, à ciência acrescentou-se a sabedoria popular - Vale Tudo Menos Tirar Olhos, porque abrir os olhos para a imagem fotográfica era a essência do projecto.

Na exposição, “Lisboa e Tejo e Tudo…”, os poemas de Pessoa, “Não: não quero nada nada me prende a nada”,
“queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?”,
“queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?”,
“Outra vez te revejo, Mas ai, a mim não me revejo”…,
escritos a preto em grandes placas de madeira pintadas de branco, conjugavam com a selecção das fotografias inéditas de Victor Palla e Costa Martins, tiradas, entre 1956-59, para o livro “Lisboa, cidade triste e alegre”. No lado oposto, na outra parede, mostravam-se os originais de maquetagem – poemas, fotografias, ozalides, (encontrados no meio dos fascículos), e desenhos.
Encadernaram-se alguns dos exemplares, como o que vemos nas mãos de Victor Palla,
Madalena Lello, Abril, 1982, Exposição "Lisboa e Tejo e Tudo"
que restavam do livro editado em fascículos, em 1959, e um catálogo/cartaz, desdobrável, onde se conta a história do livro junto com a reprodução das fotografias expostas.

E agora olhemos para o cartaz, onde os contrastes saltam à vista.
A escolha das duas fotografias, não obedeceu a critérios estéticos, nem tão pouco foi aleatória. A fotografia de cima, uma varina junto ao cais das colunas carrega à cabeça, o pescado. A sua silhueta e a varanda de pedra que acompanha o Tejo na Avenida da Ribeira das Naus, estão na penumbra, e no negrume, se nós quisermos, vemos um L.
Na outra fotografia, será que é um jovem casal que arrenda uma nova casa lá para os lados das Avenidas Novas? Não sabemos. Um X, pintado em branco no vidro da porta, é sinal de obra recente.
Agora é só juntar o L negro da penumbra, ao X branco do vidro, Lx, porque estamos em Lisboa, e haverá maior contraste entre o branco, que tudo reflecte, a soma das cores do arco-íris, e o preto, que tudo absorve, não deixando escapar nada? Sim, o contraste entre o rio e a cidade nova, que se construía, e que não escapava aos fotógrafos.
Agora olhem para o livro, que também já aqui vimos, e sigam como os autores, Palla e Martins, passam, de forma magnífica do tema das varinas para a Baixa Lisboeta:
“Página 96: Última fotografia do rio. O altivo olhar da mulher da esquerda conduz o nosso para o próximo tema. É bem claro que a metade esquerda desta cena pertence à sequência anterior, e a direita à seguinte: vamos sair dum cais onde os homens e as mulheres não se vestem de maneira muito diferente da de superficiais mas em que as coisas também não se transformaram, afinal de contas, muito consideravelmente”. Cinematográfico?

Olhemos então para o contraste, entre o rio, onde a presença é tão forte na fotografia portuguesa desses anos, e o urbanismo, que marca o início de uma nova fotografia, com Paulo Nozolino a servir de farol.

Em 1967, perto do Natal, Jorge Guerra, fotografa a sua Lisboa:
Jorge Guerra, No cais em Alcântra, Lisboa, 1967
Jorge Guerra, Jardim das Janelas Verdes, Lisboa, 1967
Jorge Guerra, Pai e filho à beira do Tejo, Lisboa, 1967
De costas para a Europa, os portugueses contemplam o oceano, no cais das colunas – “a porta aquática de Lisboa”, a espera é longa e à beira-mar as pessoas transforma-se em estátuas.
Jorge Guerra, Cais das Colunas, Terreiro do Paço, Lisboa, 1967
Jorge Guerra, chama à sua Lisboa: “Lisboa, cidade de sal e pedra”, infelizmente não saiu em livro, ficou em projecto.
Jorge Guerra, Terreiro do Paço, Lisboa, 1967

Paulo Nozolino, nos anos 80, fotografou em Lisboa. E numa bomba de gasolina da cidade, que hoje rareiam, Nozolino, fotografou este “boca de sapo” a encher o depósito.

Paulo Nozolino, Nightride, Lisboa, 1981

Ninguém começa sozinho, é difícil de fugir às influências e Nozolino também não escapou,

Robert Frank, Motorama, los Angeles, do livro "The Americans", 1959

mas um bom fotógrafo distingue-se quando transcende os grandes clássicos da história, como nestas fotografias,

Paulo Nozolino, Squatters, Lisboa, 1982

Paulo Nozolino, Olivais Sul, Lisboa, 1980

que já não lembram as obras de outros. De costas para o rio, olha-se agora para dentro, para a Europa.

Os tempos mudam, os fotógrafos, os verdadeiros, tem um faro, uma antena, e captam o “ar do tempo”, melhor que ninguém.

Nota: Na revista Fotodigital do mês de Maio, no texto “Um “Olhar” sobre a APPh” de Ângela Camila Castelo-Branco/António Barreto, lê-se: “O António Sena, em tempos proprietário e animador da galeria “Éther, só não vale tirar olhos”…” tem esta gralha na designação da galeria, razão porque aproveito este post para fazer a devida rectificação.
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quarta-feira, abril 30, 2008

A geração de Maio de 68

No ano passado, em Novembro, realizou-se em Bamako, na capital do Mali, a sétima Bienal de fotografia africana. A cidade foi o tema escolhido e a Finlândia o país convidado. “Todos os dias os africanos tem nas suas mãos um pedaço da Finlândia: o seu telemóvel portátil Nokia” dizia numa entrevista um dos organizadores e acrescentava “a essência da Bienal é mostrar uma outra imagem de África, e sair de um certo estereótipo do sacro santo preto e branco de Seydou Keita ou Malick Sidibé”, e o nadador de Samuel Fosso, dos Camarões, ilustrava as revistas da especialidade.
Samuel Fusso, Le Maître nageur, série Tati, 1997

Em paralelo, a 52ª Bienal de Veneza premiava Malick Sidibé, do Mali, com o prémio Lion d’or, o primeiro artista africano a receber esta recompensa, e a fotografia “Combat dês amis avec pierres”, 1976, a escolhida para ilustrar as revistas de arte contemporânea.
O comissário americano, Robert Storr, abria pela primeira vez as portas da Bienal de Veneza ao continente africano. Considerando-se um autêntico “soixante-huitard”, Storr confrontou as várias gerações de artistas.

Malick Sidibé, considerado no seu país, Mali, um estereótipo do passado, era premiado em Veneza. Ironias…

E o mundo mudou com a geração “soixante-huitard”.

Passemos agora para a Europa, a Europa dos anos sessenta, onde uma geração crescia em segurança, e sonhava viajar para países exóticos. Ouviam música nos seus transístores portáteis e compravam os discos favoritos que ouviam nos programas de rádio. Os programas de rádio, emitidos nos grandes aparelhos que ocupavam um lugar de destaque nas salas de estar, deixou-se de ouvir em família, e a nova geração podia ouvir agora os programas que queria nas suas rádios portáteis. Se a “Swinging London” ditava as modas, os americanos não se deixaram ficar atrás: Em Maio de 63, no Marche aux Puces, vendia-se pela primeira vez as Levi’s genuínas, e a procura ultrapassou de longe a oferta. Jeans e mini saias, vestia agora a nova geração.
Os Europeus assistiam a um crescimento económico, medido por novos indicadores, o PIB, Produto Interno Bruto, e tinham agora acesso a uma gama de produtos que os consumidores americanos já estavam familiarizados: telefones, electrodomésticos, televisão, máquinas fotográficas, vestuário, transístores, gira-discos, carros…e o boom do consumismo passou a ser um modo de vida. Os adolescentes, “teenager” como lhes chamaram na América, existiam agora como um grupo distinto, que nunca tinha existido. Na geração anterior, era-se criança até sair da escola, e tornavam-se adultos quando começavam a trabalhar. Com a escolaridade prolongada e com dinheiro para gastar, as agências de publicidade não perderam a oportunidade para os aliciar. Apareceram revistas destinadas aos adolescentes e a publicidade cresceu na ordem dos 400% nesses anos sessenta. A economia, que até aí era baseada na agricultura, passava para uma economia de serviços, e a mulher entrava no mundo do trabalho, a dona de casa passava à história e o fosso entre as gerações acentuou-se. As cidades enchiam-se de jovens que abandonavam as terras para aí trabalhar e estudar, e as universidades ficaram a abarrotar.

Regressemos novamente a África, aos anos sessenta, que a nova geração de Bamako agora prefere esquecer e que julga que a globalização chegou com os telemóveis Nokia.
Em 1960, o Mali que fazia parte do Sudão Francês obtinha a independência. Malick Sidibé, nos finais da década de 50 começa a trabalhar em Bamako como assistente do fotógrafo francês Gérard Guillat, de alcunha “gégé la pellicule”. Será gégé influência de yé-yé?. Em 62 abre o seu estúdio, e dedica-se a fotografar as festas de uma geração que dança o twist ao som da música dos gira-discos portáteis,
Malick Sidibé, Twist, 1965
Malick Sidibé, 1962
Malick Sidibé, Chez Mlle Colette, 1964
que faz de disco jokey,
Malick Sidibé, do livro Chemises, 2007
Malick Sidibé, do livro Chemises, 2007
usa mini saia e jeans,
Malick Sidibé, do livro Chemises, 2007
Malick Sidibé, yeye, 1963
anda de mota,
Malick Sidibé, do livro Chemises, 2007
e se diverte como os ocidentais.
Malick Sidibé, do livro Chemises, 2007
No dia seguinte, iam ao estúdio e escolhiam as fotografias que Sidibé numerava e colava em cartões e afixava nas paredes.
Em 2006, Jérôme Sother da Steidl, encontrou empilhados a um canto no estúdio de Sidibé, em Bamako, centenas destes cartões.
Malick Sidibé, do livro Chemises, 2007
“Chemises”, o livro editado no ano passado, selecciona os melhores. Para Sother estas fotografias constituem um documento único da sociedade de Bamako desses anos.

A geração de 60 transbordou da Europa e chegou a todo o mundo, e o mundo mudou com a geração “soixante-huitard”.

Charles de Gaulle, que um dia disse ser o guia dos franceses, julgou a nação satisfeita, os adolescentes dançavam, o desemprego baixava, a economia crescia, mas o que De Gaulle não viu, foi que esta geração farta de ser guiada estava prestes a revoltar-se,
Christer Strömholm
e no próximo post, que já é Maio, vamos então para a rua.

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